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O desafio de salvar as crianças-soldados em Ruanda

30/09/2018 10h24

George Kalisa.

Kigali, 30 set (EFE).- Ruanda reintegrou mais de 2.000 crianças-soldados desde 2001, embora ainda tenha que lidar com as chegadas de menores de idade recrutados em milícias da vizinha República Democrática do Congo, as quais acolhe para oferecer apoio psicológico e educacional.

Ao centro de reabilitação infantil de Muhoza, nos arredores de Kigali, chegaram quase mil crianças que viveram grande parte da infância na floresta congolesa, onde operam cerca de cem milícias e grupos rebeldes.

As crianças chegam a esse centro administrado pelo governo governamental fugindo da insegurança, das doenças, da fome e inclusive dos crimes contra a humanidade atribuídos a rebeldes (estupros, assassinatos e sequestros), relatou à Agência Efe o gerente do local, Charles Barisa.

Jean-Claude Masengesho nasceu em Kawongo, uma cidade da província nordeste de Kivu do Norte, na República Democrática do Congo, e quando sua mãe - ruandesa - morreu, ficou sob responsabilidade do irmão, que pouco depois foi capturado por uma milícia.

A vida se tornou difícil, e isso o obrigou em 2015 a se unir, aos 15 anos, às Forças Democráticas pela Libertação da Ruanda (FDLR), grupo rebelde formado por hutus que fugiram da perseguição do governo ruandês em represália pelo genocídio de 1994 contra os tutsis, e que foram amparados em um país - na época chamado Zaire - governado pelo ditador Mobutu Sese Seko.

"Na floresta enfrentávamos problemas inimagináveis. Além de nossos superiores nos maltratarem, não nos permitiam estudar ou receber atendimento médico. Tomávamos ervas quando ficávamos doentes", lembrou Masengesho em entrevista à Efe no centro de Muhoza.

Segundo o psicólogo do centro de apoio, Eugene Rutayisire, quando um criança chega, a equipe médica tenta conversar de uma maneira amistosa e interativa com ela para descobrir "os problemas físicos ou mentais que possa estar sofrendo".

Em Muhoza, quem quiser continuar os estudos tem essa possibilidade. Caso contrário, pode fazer cursos ocupacionais de costura, solda, carpintaria, mecânica e eletromecânica.

Só há homens, pois desde a abertura foi recebida apenas uma menina congolesa, que foi enviada às autoridades da República Democrática do Congo para que fosse atendida no país vizinho.

Junto com Masengesho, também está protegido em Muhoza há dois anos Justin Uwimana, um jovem que chegou de Kivu do Sul, outra província afetada pela violência no nordeste da República Democrática do Congo, graças à ajuda e recomendação da missão da ONU nesse país (Monusco).

"Os rebeldes do FDLR, que tinham chegado para roubar gado, nos sequestraram na escola primária. Eles nos forçavam a fazer trabalhos extenuantes, como carregar armas pesadas durante longas distâncias ou roubar comida, sob a ameaça de surras", contou Uwimana, de 15 anos, que ficou três anos na milícia.

A Monusco distribuía panfletos de Ruanda para eles com "magníficas paisagens" para animá-los a voltar ao país ou à família.

"As crianças dizem que as milícias do FDLR as atraem com a promessa de uma vida feliz depois que conseguirem derrubar o regime de Kigali", explicou David Munyurangabo, da Comissão Nacional de Desmobilização e Reintegração (RDRC), entidade governamental que se encarrega de dar apoio a esses jovens.

Até o momento, Munyurangabo disse que já foi possível reintegrar mais de 5.000 ex-combatentes desde 2001, dos quais cerca de 2.000 eram menores de idade.

"Fazemos tudo o que podemos para minimizar os danos físicos e psicológicos dessas crianças, que possuem muitos níveis de trauma", disse o comissário.

No dia 31 de dezembro do ano passado, a RDRC sofreu um corte de fundos internacionais, por isso que os funcionários temem que os problemas financeiros possam prejudicar o projeto.

Além disso, com o noroeste da República Democrática do Congo imerso há anos em uma espiral de insegurança e violência, as crianças-soldados continuam chegando a Ruanda.

"A maioria de nós ajuda para que elas voltem a ter uma vida normal, mas o processo é contínuo e continuamos recebendo crianças todos os dias", ressaltou Munyurangabo.