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Escola no Quênia usa arte para debater aids e acolher alunos com o vírus

01/12/2018 10h07

Lucía Blanco Gracia.

Nairóbi, 1 dez (EFE).- Alunos da Kibera Hamlets, uma escola localizada na maior favela de Nairóbi e uma das maiores do mundo, aguardam ansiosos e devidamente arrumados o aviso do professor para o início de um espetáculo musical elaborado para promover a conscientização sobre o vírus do HIV.

Desde 2004, a escola oferece, além da formação convencional, ferramentas para combater e tratar a doença, que atinge 36,9 milhões pessoas no mundo, com base em informações do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), e que neste 1º de dezembro é lembrada com o Dia Mundial de Combate a Aids.

Aproximadamente 1,5 milhão de pessoas vivem com HIV no Quênia e estima-se que esta seja a causa de 29% das mortes de adultos, 20% das mortes maternas e 15% das mortes de crianças com menos de 5 anos no país, de acordo com dados mais recentes do governo, que são de 2015.

Os jovens são especialmente vulneráveis ao vírus. Embora 64% das pessoas com HIV no Quênia tenham acesso ao tratamento, este número cai para 24% no caso dos jovens, segundo a Unaids.

Ao entrar na Kibera Hamlets nada faz pensar que dos 100 alunos desta colorida instituição 45 tenham HIV. O trabalho do diretor John Adoli é engajar a sociedade e os jovens através das artes e criar um espaço seguro onde eles possam compartilhar suas experiências.

Adoli fundou a escola para dar continuidade ao trabalho iniciado pela sua mãe no Orfanato Fruitful Rescue Center. Lá moram as crianças mais vulneráveis do colégio, cujos pais morreram por causas diversas: de aids à violência pós-eleitoral desencadeada em 2007.

Lona Madanyi, que todos chamam de "ShoSho" - que em língua quicuio significa "avó" -, decidiu criar o projeto para tentar minimizar a situação das crianças abandonadas da Kibera.

"Alguns agora já estudaram e se casaram, e eu fico muito feliz quando eles me visitam", disse Shosho, com um grande sorriso.

E o filho complementa: "O sucesso é alcançado quando eles entram para a faculdade, com a ajuda de doadores privados".

Stacy, Susan e Quieenter, de 12 anos, confirmam a empolgação. As três amigas querem continuar estudando e fazer Medicina, Direito e Pedagogia, respectivamente.

A Hamlets Kibera funciona também como um espaço social para os moradores do bairro, onde as crianças, além de fazerem o preparatório para o exame nacional de acesso à universidade, fazem aulas de dança, acrobacia e oficinas sobre o HIV.

Os exames médicos e o acesso aos medicamentos são gratuitos no Quênia e quase 900 mil pessoas estão em tratamento, segundo os dados oficiais, mas isso pode não ser suficiente.

"Para eles é um processo porque custam a se aceitar, mas aqui se empoderam e aprendem que essa não é uma sentença de morte", explicou o diretor, em referência aos alunos infectados com o HIV.

John tem 17 anos e há três participa do projeto. Ele convive com o vírus, mas na escola é conhecido por seus talentos como percussionista.

"Soube que era para mim desde o primeiro dia aqui. Comecei a tocar e todo mundo me aplaudiu, mas eu não entendia a razão naquele momento", explicou.

O jovem, que também mora no Fruitful Rescue Center, contou que os professores ensinaram a ele "como se controlar e como viver".

Junto com os colegas, John costuma ir com frequência a outras regiões da cidade para oferecer espetáculos de dança e música e divulgar informações sobre a aids, suas consequências e seu tratamento.

O projeto é financiado a partir do dinheiro obtido com as apresentações, as vendas de artesanato e o apoio de doadores privados.

"As pessoas com HIV ainda têm um estigma, elas não devem falar e temem ser rotuladas, mas a comunidade sente que a escola é um espaço seguro e passa a se envolver", sussurrou Adoli, sem desviar o olhar dos alunos que dançavam.