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Crise da Igreja mancha ano do "triunfo" do Chile em Haia

21/12/2018 23h18

Rubén Figueroa.

Santiago, 21 dez (EFE).- A crise na Igreja Católica, assolada por diversos casos de suposto abuso sexual, marcou o ano de 2018 no Chile, no qual Sebastián Piñera começou seu segundo mandato e a Corte Internacional de Justiça rejeitou que o país seja obrigado a negociar com a Bolívia a sua saída soberana para o mar.

No âmbito interno, o Chile viveu um ano sem catástrofes naturais, nem terremotos de grande magnitude, mas os alicerces do país foram abalados pela intensificação do conflito mapuche após a morte de um integrante desta comunidade indígena por um disparo na nuca durante uma operação dos Carabineiros, a polícia militarizada do país.

A visita do papa Francisco ao Chile em janeiro de 2018 levou a uma onda imediata de denúncias por supostos casos de abuso sexual cometidos dentro da Igreja Católica no país, que vive o pior momento de sua história.

Para investigar as denúncias, o pontífice enviou ao Chile o arcebispo de Malta, Charles Scicluna, em duas ocasiões. Em sua primeira missão, a autoridade eclesiástica elaborou um relatório de mais de 2 mil páginas sobre o bispo Juan Barros, acusado de encobrir os abusos sexuais cometidos pelo sacerdote Fernando Karadima, condenado em 2011 pela Justiça canônica.

Os bispos chilenos foram intimados a comparecer ao Vaticano, onde reconheceram que cometeram "graves erros e omissões", e puseram seus cargos à disposição do pontífice, que, até o momento, aceitou as renúncias de sete deles.

Além disso, o papa expulsou do serviço clerical dois ex-bispos e dois sacerdotes, entre eles Karadima, por diversos casos de abuso que vieram à tona, deixando para trás a lógica de silêncio e obscurantismo na qual viviam até agora os denunciantes.

Na atualidade, os casos abertos no Ministério Público por abusos sexuais chegam a 139, envolvendo 245 vítimas e com 190 pessoas investigadas.

A crise da Igreja Católica ocupou um tempo da reunião que Piñera e o papa mantiveram em outubro no Vaticano, na qual também se falou sobre a política migratória promovida pelo governante chileno, um dos temas principais de seu primeiro ano de mandato.

Piñera iniciou um processo de regularização de estrangeiros, e articulou uma reforma migratória que exige um visto especial de turismo para os haitianos e uma permissão para imigrantes venezuelanos.

Tudo isso com o objetivo de promover uma migração "boa, ordenada, regulada e segura", mas que foi tachada de racista e discriminatória por várias ONGs.

O governo também estabeleceu um "Plano Humanitário de Retorno Ordenado", para a repatriação voluntária de imigrantes que não conseguiram se instalar com sucesso no Chile e desejam voltar para seu país.

Além disso, já no fim do ano, o governo anunciou sua decisão de não fazer parte do Pacto Migratório Mundial da ONU, aprovado por mais de 150 países em Marrakech, no Marrocos, por entender que o acordo afeta a soberania dos países para decidir sobre suas políticas migratórias, entre outros.

O ano também ficou marcado pelo início um novo conflito mapuche em Araucanía, no sul do país, após a morte de Camilo Catrillanca, de 24 anos, durante uma operação dos Carabineiros, que supostamente perseguiam ladrões de automóveis.

Apesar de não ter sido esclarecida a identidade e o propósito do autor material do disparo que vitimou Catrillanca, as dúvidas sobre as circunstâncias da morte cresceram gradualmente, entre uma confusão de versões sobre o ocorrido e as destituições e renúncias de várias autoridades da polícia militarizada.

Em matéria social, Piñera sancionou a lei de identidade de gênero que permitirá a mudança de nome e sexo a partir dos 14 anos de idade, enquanto no âmbito econômico o Banco Central do Chile previu um crescimento do PIB de 4%, o maior desde o ano de 2013, quando a economia chilena também se expandiu nesse percentual.

Além disso, o ano de 2018 ficou marcado pela decisão da Corte Internacional de Justiça de Haia de que o Chile não tem obrigação legal de negociar com a Bolívia a restituição do acesso soberano ao Oceano Pacífico perdido em uma guerra em 1879.

A decisão representou "um grande triunfo para o Chile", conforme enfatizou Piñera, que comemorou a mesma com um banho de patriotismo em Antofagasta, uma das cidades situadas no centro da reivindicação boliviana, que apresentou seu requerimento à CIJ em 2013.

Os dois países devem voltar a se enfrentar na CIJ em 2019, agora pelo status das águas do rio Silala. EFE