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Marrocos enfrenta fluxo inédito de imigrantes por mudança de rota migratória

21/12/2018 23h20

Fatima Zohra Bouaziz.

Rabat, 21 dez (EFE).- O Marrocos enfrentou neste ano um fluxo excepcional de imigrantes irregulares para a Europa depois que as rotas migratórias se deslocaram para o Mediterrâneo ocidental, com números sem precedentes em mais de uma década.

Entre janeiro e novembro, o país norte-africano abortou 76 mil tentativas de migração clandestina para a Europa, em quase todos os casos com a interceptação de balsas por parte de gendarmes e efetivos da Marinha Real marroquina, intervenções que são praticamente diárias desde o último verão no hemisfério norte.

O número anunciado pelo vice-ministro do Interior marroquino, Nuredin Boutayeb, no parlamento significa que há uma média de 230 tentativas diárias de saídas que são barradas pelos agentes.

Além disso, Boutayeb indicou que os efetivos de seu país impediram no decorrer deste ano 30 "tentativas violentas" de pular as cercas terrestres no entrono das cidades espanholas de Ceuta e Melilla.

Este aumento exponencial na parte marroquina se repete igualmente na Espanha, do outro lado do Estreito de Gibraltar: a Organização Mundial para as Migrações (OIM) informou em suas últimas estatísticas deste ano, até o dia 21 de novembro, que 50.962 migrantes e refugiados chegaram à Espanha por via marítima, o que representa metade das entradas irregulares na região mediterrânea.

A intensificação de todas essas tentativas ilegais de travessia também resultou em um número inquietante de mortos: segundo os últimos dados da OIM, 631 pessoas perderam a vida no Mediterrâneo ocidental, em algum lugar da rota entre Marrocos e Espanha.

Os observadores atribuem esse aumento ao fechamento das rotas do leste do Mediterrâneo devido à instabilidade e aos conflitos políticos em vários países de passagem, como a Líbia, e à política europeia que torna impossível a expulsão de menores - apesar de estarem em situação irregular - do território comunitário.

"A posição geográfica do Marrocos o transformou em um cruzamento de imigrantes de todas as nacionalidades, principalmente subsaarianos que sonham com uma Europa cada vez mais fechada", alertou o próprio Boutayeb recentemente em outro encontro em Rabat sobre a segurança na África.

Mas não são só os subsaarianos: também os marroquinos têm se juntado a essa febre migratória no ano corrente, com uma intensidade que chamou a atenção de políticos, sociólogos e jornalistas.

No fim do verão europeu, começaram a aparecer nas redes sociais vídeos feitos com telefones celulares que mostravam jovens marroquinos (às vezes atletas de certo sucesso) no meio do mar, viajando ilegalmente para a Espanha em um bote inflável e cantando de alegria por se aproximarem do litoral espanhol, enquanto encorajavam seus compatriotas a emigrar.

Segundo os observadores, essas gravações tiveram efeito e centenas de jovens começaram a viajar para as cidades do norte do país para aguardar uma oportunidade de atravessar o Estreito de Gibraltar, seja por motivos econômicos ou políticos.

Esta recente onda migratória foi acompanhada de vários incidentes, como a descoberta em 24 de novembro por parte da Marinha Real marroquina de 15 corpos de imigrantes subsaarianos em uma embarcação que estava há vários dias à deriva no Mediterrâneo, em frente ao litoral de Nador.

Também a morte em 25 de setembro da jovem marroquina Hayat Belqasem, de 19 anos, por disparos da Marinha Real nas proximidades da cidade de Fnideq (Castillejos, em espanhol) contra uma lancha que transportava um grupo de imigrantes ilegais.

A pressão sobre seu próprio litoral fez com que o governo marroquino reconhecesse que se sentiu "superado" em seu dispositivo de segurança e usasse este argumento como carta política para pedir em diversas ocasiões um maior envolvimento da União Europeia (UE) no controle das fronteiras, um pedido no qual contou com o apoio da Espanha.

Assim, a UE desbloqueou uma ajuda excepcional de 140 milhões de euros para o Marrocos, sem responder exatamente às demandas do país africano, que pede um mecanismo "durável e sustentável" para garantir o controle migratório. EFE