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Papa Francisco e a batalha diante dos escândalos de abusos

21/12/2018 23h22

Cristina Cabrejas.

Cidade do Vaticano, 21 dez (EFE).- Os novos relatórios sobre milhares de casos de abusos sexuais contra menores de idade cometidos por membros do clero em várias partes do mundo e as acusações à Igreja de não ter feito o suficiente para enfrentá-los colocaram o papa Francisco em uma encruzilhada em 2018.

O ano começou com uma viagem ao Chile e ao Peru em janeiro. Em território peruano, o papa fez uma defesa do bispo chileno Juan Barros, acusado de acobertar o padre pedófilo Fernando Karadima, e isso gerou um verdadeiro problema para ele. Depois, veio uma das consequências mais duras do escândalo de abusos até agora: a renúncia de todos os bispos do Chile.

"Não posso deixar de manifestar a dor e a vergonha que sinto diante do dano irreparável causado a crianças por parte de ministros da Igreja", afirmou Francisco em discurso no Palácio de la Moneda.

Mas isso não foi suficiente para acalmar a opinião pública, que se sentia ofendida com anos de conivência e crimes. Além disso, ao responder a alguns jornalistas sobre este caso durante a visita ao Chile, o pontífice afirmou que as acusações contra Barros eram "calúnias".

Francisco teve que pedir desculpas diante dos jornalistas que o acompanhavam no voo de volta e depois enviou o arcebispo maltês Charles Scicluna e o padre espanhol Jordi Bertomeu para uma intensa investigação sobre o caso.

Com os resultados do relatório, o pontífice reconheceu "graves equívocos de avaliação", a "falta de informação veraz e equilibrada" e convocou todo o episcopado chileno para ir a Roma. Para uma reunião na sua residência, a Casa Santa Marta, ele convidou três vítimas do caso Barros: Juan Carlos Cruz, James Hamilton e José Andrés Murillo. Após o encontro com Francisco, todos os bispos chilenos apresentaram a renúncia, e o papa, então, começou a renovar o episcopado, embora tenham solicitado mais velocidade e pulso firme.

As histórias de contínuos abusos e de acobertamento voltaram a afetar a Igreja Católica após a publicação, em agosto, das conclusões da Corte da Pensilvânia, nos Estados Unidos, que documentava 300 casos de "padres predadores" sexuais em seis dioceses e cerca de mil vítimas menores de idade. Um escândalo que acompanhou Francisco durante a viagem de dois dias à Irlanda, em 25 e 26 de agosto, outro país que no passado sofreu os imperdoáveis crimes de abusos, exploração, torturas psicológicas e roubos de crianças por parte da Igreja.

Poucos dias antes, em 20 de agosto, Francisco escreveu uma carta inédita destinada a todo "o povo de Deus" afirmando que "nunca será suficiente o que se faça para pedir perdão e procurar reparar o dano causado" pelos abusos. Mas muitos pediam ao papa ações concretas ou uma mudança das normas vigentes para aplicar uma verdadeira "tolerância zero" para esses crimes.

Durante a visita à Irlanda para o Encontro das Famílias, veio à tona o "Caso Viganò". Em carta de 11 páginas publicada em vários veículos de imprensa de linha conservadora, o ex-núncio dos Estados Unidos Carlo Maria Viganò, de 77 anos, pedia a renúncia de Francisco ao dizer que ele conhecia desde junho de 2013 as acusações de abusos sexuais contra o cardeal Theodore McCarrick, que tinha sido sancionado dois meses antes pelo pontífice.

O feroz ataque, para muitos orquestrado por setores conservadores da política e da Igreja, foi respondido pelo Vaticano com a abertura de uma investigação sobre McCarrick.

Com uma "maior tomada de consciência" dos abusos e da necessidade de responder de maneira mais eficaz, Francisco convocou os presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo para uma reunião inédita no Vaticano entre 21 e 24 de fevereiro.

"A reunião de fevereiro não tem precedentes e mostra que o papa Francisco fez da proteção dos menores uma prioridade fundamental para a Igreja", explicou o porta-voz do Vaticano, Greg Burke.

Neste ano também foi realizado um Sínodo dedicado aos jovens, quando aconteceu o histórico acordo entre a Santa Sé e a China para a nomeação dos bispos, um primeiro passo para a ainda difícil normalização das relações entre esses dois Estados. EFE