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Primeira escola de tatuagens no Magrebe, entre o tabu e a tradição

24/12/2018 10h29

Natalia Román Morte.

La Marsa (Tunísia), 24 dez (EFE).- Pioneira de sua classe no Magrebe, a recém-inaugurada Escola Nacional de Tatuagem da Tunísia luta contra o tabu do Islã, ao mesmo tempo que mergulha na tradição beduína para tentar abrir espaço na sociedade tunisiana e oferecer aos jovens uma alternativa no mercado de trabalho.

Se para os devotos mais conservadores a tatuagem significa um ato de mutilação do corpo, proibido pela religião, a tatuagem faz parte da tradição berbere que transformou em famosos os símbolos que decoram os rostos das mulheres desse grupo do norte da África.

"O povo esqueceu a história e acredita que tudo começou a partir da colonização árabe", explicou o fundador da escola, Fawez Zahmoul, que rejeita a afirmação de que a tatuagem seja uma "moda" ou uma imitação do ocidente.

Zahmoul, formado em engenharia de som, começou na arte da tatuagem há 15 anos, mas apenas em 2016 conseguiu abrir o primeiro estúdio no país, um feito, já que tirou a profissão da clandestinidade.

"Em todas as religiões existe o conceito de sagrado e proibido, mas ao final trata-se de uma decisão pessoal", defendeu o artista, discreto tanto em palavras como nas tatuagens que cobrem seu corpo.

Zahmoul comentou que sofreu uma agressão pouco depois de abrir sua escola, acusado de utilizar produtos "satânicos", e que batalha há anos pela legalização da tatuagem - teve que lidar com a burocracia tunisiana e enfrentar o desafio de importar produtos no país.

Produtos caros, que em algumas ocasiões fica retido meses inteiros no porto, bloqueado pela alfândega tunisiana, considerada um dos principais ninhos da endêmica corrupção que ainda destrói o país.

"Graças aos trabalhos que realizo no exterior, pude me permitir comprar material e abrir a escola", disse o empresário, que como os outros teve que lidar com a desvalorização galopante do dinar tunisiano, que em apenas um ano perdeu 60% de seu valor.

Um investimento considerável também para sua primeira turma de estudantes, uma dezena de alunos que devem pagar de matrícula 4 mil dinares (cerca de 1,1 mil euros).

Estes aprenderão nos próximos seis meses conhecimentos básicos de enfermaria e higiene, além de história da arte e da imagem junto com técnicas de tatuagem.

Concentrados sobre as carteiras, um grupo deles trabalha em silêncio sobre pele sintética enquanto o barulho das máquinas se mistura com a música clássica que toca no fundo.

Sami Essid, fisioterapeuta de 31 anos, ocupa a primeira fila sem quase tirar o olhar de sua obra: uma caveira de grandes olhos negros.

"Quando fiz a minha primeira tatuagem, olhei para o tatuador e pensei: é isto o que quero fazer", explicou, enquanto mostra os seus braços cobertos de traços de tinta. "Me informei que Fawez iria abrir uma escola e esperei durante dois anos", acrescentou Essid.

"Pode parecer estranho, mas ao mesmo tempo são duas profissões que compartilham o fator médico. Meu sonho é abrir meu próprio consultório de fisio-tatuagem", afirmou o rapaz em um tom divertido.

Atrás dele, sua colega Gana Atiaoui, de 19 anos e a única mulher presente, concilia sua paixão com seus estudos em gestão turística.

"Como terminei aqui? É engraçado, minha mãe me surpreendeu um dia enquanto eu desenhava no braço e foi ela que propôs que eu me inscrevesse. Me disse: você tem um dom, aproveite-o enquanto segue com seus estudos", lembrou orgulhosa.

A próxima geração de artistas sabe dos preconceitos que devem enfrentar, frequentemente relacionados com a criminalidade e o presídio, mas acredita que assim que a sociedade tunisiana recuperar esta tradição ela não mais será abandonada. EFE