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Caso de menino preso em poço deixa solidariedade como legado na Espanha

26/01/2019 10h05

Roberto Ruiz Oliva.

Totalán (Málaga), 26 jan (EFE).- O trágico desfecho do resgate do menino Julen, cujo corpo foi localizado na madrugada deste sábado após 13 dias em um poço em Totalán, no sul da Espanha, deixa no tempo que durou toda a operação de resgate uma coordenação e uma solidariedade institucional e social sem precedentes no país.

A queda de Julen, de dois anos e meio, em um poço no último dia 13 marcou o início de um grande desdobramento humano e técnico que chegou a mobilizar centenas de pessoas em uma autêntica luta contra o tempo.

As próprias caraterísticas do buraco em que Julen caiu, de apenas 25 centímetros de diâmetro e 107 metros de profundidade, unidas à particularidade do terreno, representaram um grande desafio em busca de soluções para chegar o mais rápido possível ao menino.

A "capa" de terra dura encontrada a 71 metros de profundidade, os deslizamentos e a dureza do solo que obrigaram a descartar a construção de um primeiro túnel horizontal, e as dificuldades para construir e revestir outro duto vertical e, a partir deste, a galeria horizontal interligada ao poço onde estava Julen não desanimaram as equipes que trabalharam no resgate.

Mineiros, bombeiros e guardas civis lideraram uma luta implacável contra a montanha que mobilizou especialistas e empresas de diferentes partes da Espanha, e também de outros países, que não perderam a esperança de localizar o menino com vida.

Dois dias depois da queda de Julen no poço, a Brigada de Salvamento Mineiro de Hunosa, na região das Astúrias, se deslocou até a região para programar a escavação manual do túnel horizontal.

Nesse mesmo dia se soube que, entre várias empresas que colaboraram com o resgate, estava a companhia sueca que conseguiu localizar o ponto exato onde estavam o 33 mineiros do Chile, presos durante 69 dias após o acidente na mina em que trabalhavam em 2010.

Após dias de trabalho da grande quantidade de maquinaria pesada que interveio nos movimentos de terra e na perfuração do túnel vertical paralelo ao poço, no último dia 19 chegou a Totalán a cápsula metálica de dois metros de altura projetada pelos Bombeiros da província de Málaga para resgatar Julen, que os mineiros usaram pela primeira vez na última quinta-feira.

Além de toda esta operação técnica, que foi o tempo todo coordenada institucionalmente e divulgada através de um grande desdobramento na região de veículos de imprensa de todo o mundo e de forma muito ampla nas redes sociais, o resgate mudou a rotina de um pequeno e tranquilo povoado de 700 habitantes da circunscrição denominada Axarquía, na província de Málaga.

Esta enorme obra de engenharia humanitária, como chegou a ser definida pelo coordenador da operação, e sua repercussão ultrapassaram os limites do município, cuja solidariedade e hospitalidade foram invejáveis, tanto na hora de apoiar a família de Julen como à equipe que procurou o menino, a quem que não faltou comidas quentes graças inclusive a uma cozinha improvisada em um salão paroquial.

A casa cedida por uma vizinha e que acolheu os familiares mais próximos da criança foi o melhor exemplo desta entrega dos moradores de Totalán, cuja Câmara Municipal canalizou as ofertas de diferentes imóveis, entre eles o que serviu como posto de comando para os corpos e forças de segurança.

Um "pesadelo", como muitos definiram, de 13 dias com um triste final, mas que também serviu para que, no futuro, esta cidade possa não só ser recordada pela tragédia. Essa solidariedade coletiva certamente se tornará o melhor legado de Julen. EFE