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Internacional

Patriarca da Ásia Central, Nazarbayev renuncia à presidência do Cazaquistão

19/03/2019 16h00

Kulpash Konyrova.

Astana, 19 mar (EFE).- Último político no poder desde a era soviética, Nursultan Nazarbayev apresentou nesta terça-feira sua renúncia à presidência do Cazaquistão, a maior república da Ásia Central e um país com enormes recursos naturais pretendidos pelo Ocidente, a China e a Rússia.

"Tomei a decisão de dar fim ao exercício das minhas funções como presidente. Este ano fará 30 anos desde que assumi o cargo. O povo me deu a oportunidade de ser o primeiro presidente do Cazaquistão independente", declarou Nazarbayev em mensagem transmitida em rede nacional.

Um ano antes do fim do seu último mandato, Nazarbayev surpreendeu com uma renúncia que muito provavelmente abrirá um período de transição política no país.

Os rostos nas ruas da capital, Astana, eram de incredulidade e resignação, já que a população teme que agora se inicie uma luta pelo poder entre os clãs governantes.

O agora ex-governante chegou ao poder da república soviética do Cazaquistão em 1989 e, uma vez proclamada a independência da União Soviética, em 1991, assumiu a presidência.

Aos 78 anos, Nazarbayev já vinha dando sinais de esgotamento. Contudo, ao estilo do líder chinês Deng Xiaoping, não soltará totalmente as rédeas do país, já que continuará como chefe do Conselho de Segurança - um órgão consultivo - e líder do partido governista Nur Otan.

"Continuarei com vocês", disse Nazarbayev, que foi nomeado "líder da nação" ("Elbasi") com imunidade vitalícia, razão pela qual não pode ser detido nem processado por atos cometidos no poder ou depois de deixá-lo.

Na opinião do analista político Dosim Satpaev, o líder cazaque considerava ainda muito recente o ocorrido no vizinho Uzbequistão com a morte em 2016 do presidente do país, Islam Karimov, que debilitou sua família e seu legado.

"Ele se foi, mas fica. Com sua renúncia, o cargo de presidente de repente se torna secundário, já que acima dele está agora o 'líder da nação' e o presidente vitalício do Conselho de Segurança", comentou Satpaev em sua conta no Facebook.

Nazarbayev, que poderia se candidatar à reeleição quantas vezes quisesse, cedeu o cargo ao presidente do Senado, Kazim-Zhomart Tokayev, de 65 anos, conforme estipula a Constituição do Cazaquistão, e adiantou que "depois haverá eleições presidenciais".

"Ele trabalhou comigo desde os primeiros dias da independência do Cazaquistão. Acredito que Tokayev é a pessoa a quem podemos confiar a gestão do Cazaquistão. É um homem honesto, responsável e realizador", comentou.

Além de lembrar que foi ministro das Relações Exteriores, primeiro-ministro e inclusive vice-secretário-geral da ONU, Nazarbayev destacou que o novo homem forte do Cazaquistão fala "fluentemente" inglês e chinês.

Tokayev, que estudou Relações Internacionais em Moscou, como todo diplomata do alto escalão soviético, contribuiu para cultivar uma relação privilegiada com a China, país ao qual o Cazaquistão fornece grande parte do gás que extrai e que investiu dezenas de bilhões de dólares na economia cazaque.

Por essa razão o Ocidente temia tanto o dia em que Nazarbayev deixaria o poder, já que ele é o fiador de uma política externa equilibrada entre leste e oeste, motivo pelo qual é o líder mais respeitado de todo o espaço pós-soviético.

Sem contar os primeiros anos nos quais teve que transferir sua capital para Astana, já que o norte do país é habitado majoritariamente por russos, Nazarbayev manteve estreitas relações com o chefe do Kremlin, Vladimir Putin.

De fato, logo após ser divulgada hoje a notícia, Putin ligou para Nazarbayev, segundo informou o Kremlin.

O presidente cazaque nunca chegou a reconhecer a anexação russa da península ucraniana da Crimeia e atraiu vários investidores ocidentais, o que lhe garantiu os apoios necessários para sediar a Exposição Universal 2017.

Embora a oposição cazaque seja muito pouco representativa, Nazarbayev é um dos poucos líderes da região que não tem as mãos manchadas de sangue, por isso sempre contou com o apoio dos Estados Unidos e da União Europeia.

Segundo a Constituição, as eleições presidenciais serão realizadas dentro de um ano e os analistas políticos não descartam que Tokayev se lance como candidato diante da falta de um herdeiro definido para Nazarbayev.

É quase um consenso entre os cazaques que Tokayev é uma figura comprometida que tem a aprovação das grandes potências, o que permitirá a Nazarbayev garantir a estabilidade durante a transferência de poder. EFE

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