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Líder da junta militar que governa a Tailândia busca legitimidade nas urnas

22/03/2019 18h16

Jordi Calvet.

Bangcoc, 22 mar (EFE).- Após quase cinco anos à frente do governo da junta militar na Tailândia, o general golpista Prayut Chan-ocha quer continuar mandando no país, mas agora ungido pela legitimidade procedente das urnas nas eleições do próximo domingo.

De todos os candidatos a liderar o próximo governo, Prayut, indicado pelo Phalang Phracharat, um partido pró-militar criado à sombra da junta, é quem larga com maior vantagem.

Isso, no entanto, não se deve a um apoio popular arrasador, que não é refletido nas pesquisas, mas pela flagrante manipulação de instituições e leis que pavimentam seu caminho, com direito a uma composição do Senado escolhida a dedo e que elegerá, junto com a nova câmara baixa do Parlamento, o futuro chefe de Governo.

Nascido em uma família modesta do nordeste do país, Prayut, de 65 anos, dedicou toda a vida a uma carreira militar que o manteve perto de constantes intrigas de poder e que, em 2010, o levou a ser nomeado chefe do Exército.

Após sair da academia em 1976, Prayut foi incorporado à unidade que se transformaria na Guarda da Rainha, que abriga os chamados Tigres Orientais, a facção predominante do exército na última década e à qual ele pertence.

Pouco depois, Prayut se mudou para Bangcoc, onde começou a tecer a rede de relações que o levou ao topo da hierarquia militar, apesar de contar com pouca experiência em combate.

"A mãe dele trabalhava a serviço da rainha (Sirikit). Isso lhe deu a oportunidade de manter vínculos com as elites e de ascender em nível palaciano", disse à Efe Surachart Bamrungsuk, especialista em assuntos militares e de segurança da Universidade de Chulalongkorn.

O nome do militar começou a ganhar força nacionalmente em 2006, quando assumiu a crucial segurança de Bangcoc no golpe de Estado contra o primeiro-ministro Thaksin Shinawatra, líder do movimento político em conflito com as elites da capital que venceu todas as eleições desde 2001.

"Foi sua primeira experiência como golpista", afirmou Surachart.

O nome de Prayut também aparece na manipulação que permitiu a formação, em 2008, do governo pró-establisment de Abhisit Vejjajiva, depois que dois governos favoráveis a Thaksin foram dissolvidos pelos tribunais em meio aos protestos dos "camisas amarelas", que defendiam a monarquia e se opunham ao grupo do ex-primeiro-ministro.

Ao assumir o comando do exército, Prayut supervisionou a operação militar que esmagou os protestos dos "camisas vermelhas", antagonistas dos "camisas amarelas" e simpatizantes de Thaksin, que deixou 90 mortos no coração comercial de Bangcoc.

O general, no entanto, parecia ter uma boa relação com a primeira-ministra Yingluck, irmã de Thaksin, quando os thaksinistas voltaram ao governo em 2011.

Mas, por fim, Prayut acabou tomando o poder do grupo após meses de protestos populares. Após o levante, o general se aposentou, mas conservou seu cargo à frente da junta e se elegeu primeiro-ministro por um parlamento fantoche que o regime formou com seus auxiliares.

A transformação de um general seco e taxativo em político revelou um personagem falastrão, um sermonizador incansável que ainda mantém seu programa semanal de televisão no qual faz discursos para a população, apesar de sua audiência irrisória.

Intolerante em relação a qualquer demonstração de dissidência, Prayut também mostrou um caráter irascível e propenso a perder as estribeiras diante da imprensa, a ponto de jogar uma casca de banana em direção a um cinegrafista.

"Desde que passou a ser primeiro-ministro, ele se expõe ao público e mostra como é. Sua personalidade real, uma personalidade autoritária", afirmou Surachart.

Autor de meia dúzia de músicas com letras patrióticas e muitas gafes, o general foi alvo recorrente da piada de humoristas. Suas excentricidades, no entanto, "são vistas por seus seguidores como sinal de honestidade, de que é um sujeito autêntico", segundo o acadêmico.

Nas últimas semanas, o general buscou modular sua imagem com uma campanha na qual se apresentava como uma pessoa afável, que não se irrita facilmente e tem um ar mais jovial.

Se isso terá resultado ou não, não se saberá oficialmente até que aconteça a coroação do rei Vajiralongkorn, em 4 de maio.

Prayut, que segundo a maioria dos analistas políticos tailandeses liderou um golpe projetado para garantir uma transição ordenada após a morte do rei Bhumibol, que faleceu em 2016, permanecerá no cargo até lá.

Depois, seja qual for o resultado, os militares conservarão intacta sua capacidade de ingerência graças à profunda reforma introduzida pela junta.

Porém, resta saber se serão Prayut e seus parceiros de junta que movimentarão os fios condutores do país ou se caberá à nova liderança do exército, que se consolida sob o novo reinado. EFE

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