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O fim do "califado" e da truculência em alta definição

22/03/2019 19h37

Manuel Pérez Bella.

Cairo, 22 mar (EFE).- O final do "califado" do Estado Islâmico (EI) põe fim ao reinado de terror de um grupo que fez um uso de uma propaganda sem precedentes para exibir seus métodos macabros na internet e em redes de televisão de todo o mundo.

As execuções de reféns transformadas em filmes "gore" em alta definição foram essenciais para acentuar a sensação de perigo global, mas a grande maioria das vítimas do EI se concentrou nos seus domínios no Oriente Médio.

A propaganda semeia o pânico mundial:.

No apogeu de sua expansão territorial, em 19 de agosto de 2014, o EI exibiu toda a sua crueldade com um vídeo que mostra a decapitação do jornalista americano James Foley.

Aquele seria o primeiro de uma série de assassinatos de reféns estrangeiros, protagonistas involuntários de vídeos que deram a volta ao mundo e que são reconhecidos tanto por banalizar a violência como por sua impecável produção audiovisual, incomparável à de outros grupos terroristas até então.

A qualidade da propaganda do EI, um fator decisivo para a sua ampla divulgação, se explica porque o grupo sequestrou jornalistas na Síria e no Iraque que foram forçados a colocar sua experiência profissional à disposição dos jihadistas para não acabarem ajoelhados e vestidos de laranja diante do facão de um carrasco.

Estes vídeos deram fama a terroristas como o britânico "Jihadi John", protagonista de peças publicitárias audiovisuais pensadas para aterrorizar os cidadãos de seus países de origem e também para encorajar muçulmanos radicais europeus a se somarem à "guerra santa".

Deste modo, o "califado" se transformou em um ímã que atraiu milhares de radicais de todo o mundo árabe, mas também de países muçulmanos do Cáucaso e inclusive da Europa Ocidental.

O rastro de sangue do "califado":.

Apesar da grande atenção dada às execuções midiáticas de estrangeiros e aos atentados em capitais europeias, a maioria das vítimas do EI se concentrou na Síria, no Iraque e, em menor medida, em outros países onde o grupo terrorista criou raízes, como Egito, Afeganistão e Filipinas.

Um dos episódios mais letais aconteceu em 3 de agosto de 2014, quando radicais levaram o terror a Sinjar, uma remota cidade no noroeste do Iraque e lar dos yazidis, povo que os islamitas classificam pejorativamente como "seguidores de Satã".

Cerca de 5 mil homens foram assassinados, 7 mil crianças e mulheres e crianças foram sequestradas, sendo as últimas transformadas em escravas sexuais.

Entre essas mulheres estava a vencedora do Nobel da Paz Nadia Murad.

As cidades conquistadas pelos jihadistas ficaram cercadas de valas comuns, que foram destino de policiais, jornalistas e incontáveis civis assassinados por professar religiões desprezadas pelos radicais. Pelo menos 202 fossas foram documentadas só no Iraque, segundo a ONU.

As vítimas dos atentados no Oriente Médio são centenas. Entre elas, cerca de 300 pessoas foram assassinadas no ramadã de 2016 em um atentado no bairro xiita de Karrara, em Bagdá.

Além disso, 300 sufistas morreram baleados em uma mesquita no Sinai, no Egito, em novembro de 2017, e uma série de ataques armados e atentados suicidas deixaram 252 mortos, entre eles 139 civis, na em Al Sweida (Síria) em julho do ano passado.

A incógnita dos desaparecidos:.

Os sequestros se transformaram em outra ferramenta para conseguir financiamento e atenção midiática. Mas após o final do "califado", o destino de vários dos reféns continua sendo um mistério.

O jesuíta italiano Paolo Dall'Oglio, sequestrado na Síria em 2013, foi visto em Al Raqqa em 2015 e há poucas semanas surgiram novos rumores de estaria vivo em Al Baguz, segundo veículos de imprensa libaneses próximos à milícia xiita Hezbollah.

O jornalista britânico John Cantlie, sequestrado na Síria em novembro de 2012, também pode estar vivo, segundo revelou no início de fevereiro o secretário de Estado de Segurança do Reino Unido, Ben Wallace.

Mas a maior incógnita a ser resolvida é o destino de 3 mil yazidis cujo paradeiro ainda é desconhecido depois que o território do "califado" ser totalmente dissolvido. EFE