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Em parada do Orgulho LGBT de São Paulo, público une forças contra Bolsonaro

23/06/2019 20h56

Nayara Batschke.

São Paulo, 23 jun (EFE).- Cerca de 3 milhões de pessoas participaram neste domingo da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, o primeiro desde o início do governo do presidente Jair Bolsonaro e que aconteceu apenas dez dias depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) tipificar a homofobia como crime.

"Cada um sabe da sua vida. O presidente deveria cuidar da política e dos problemas do Brasil, em vez de se meter com as opções individuais de cada um", afirmou à Agência Efe a aposentada Ana S., que disse ser heterossexual, mas acreditar que todas as preferências devem ser respeitadas.

Durante a última semana, a presidente da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, Cláudia Regina Garcia, tinha dito que neste domingo as pessoas sairiam às ruas e os governantes entenderiam que "ninguém vai voltar para casa, pro armário ou para a senzala". Hoje, confirmando isso, milhões de pessoas ocuparam a Avenida Paulista e grupos de diversas idades e estilos desfilaram, enquanto alternavam entre passos de dança, demonstrações de afeto e críticas ao presidente brasileiro.

Com o tema, "50 anos de Stonewall - Nossas conquistas, nosso orgulho de ser LGBT+", a multidão acompanhou 19 trios elétricos durante mais de seis horas. Em uma grande festa e com forte tom político, diversos participantes levavam cartazes com frases como "A nossa arma é o amor", "Transformamos vergonha em orgulho" e "Ele não, fora Bolsonaro".

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas, estava no evento e disse à imprensa que "o mais importante" é "mostrar ao Brasil e ao mundo" que a cidade "quer ser uma referência nos direitos humanos".

Sem citar diretamente o nome de Bolsonaro, ele afirmou ser "muito triste" ver "casos como o da demissão" de um diretor de banco porque "contratou atores e atrizes LGBT para um comercial", em referência ao veto presidencial a uma propaganda do Banco do Brasil, que culminou com a demissão do então diretor de marketing da instituição, Delano Valentim, em abril.

Como parte do movimento da festa deste ano, a Prefeitura autorizou que alguns sinais de trânsito da Avenida Paulista exibissem casais homoafetivos no lugar dos bonequinhos que indicam se o pedestre pode atravessar ou deve aguardar. Além disso, vários edifícios colocaram decorações com as cores do arco-íris nas janelas e algumas faixas de pedestre foram coloridas.

Entre a multidão, crianças, casais, idosos e famílias inteiras caminharam ao som de diversas atrações musicais, como Mel C, ex-integrante do grupo britânico Spice Girls, Karol Conka e Iza.

O técnico hospitalar Leandro Mendes da Silva foi um dos participantes da Parada de hoje. Para ele, um governante não deveria ser guiado por princípios religiosos, já que tem a "obrigação" de "governar para todos, incluindo os que não votaram nele".

"Ele (Bolsonaro) deveria manter o foco no que lhe cabe como presidente e deixar de lidar com coisas tão pequenas, como a opção sexual das pessoas", afirmou à Efe.

A 23ª edição do evento também foi a primeira desde a histórica decisão do STF pela criminalização da homofobia. Para a presidente da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, a decisão representa uma grande vitória, mas "existem outros desafios pela frente".

"De nada serve criminalizar (a homofobia) se não há uma política de segurança e saúde para a comunidade LGBT", destacou.

Na mesma linha, o professor de Filosofia Orlando Alves Meirelles disse que a decisão é de "extrema importância", mas o "retrocesso" que o país vive é preocupante.

"A partir do momento que um país precisa de uma lei para manter a civilidade e a convivência pacífica, estamos dando um passo atrás", argumentou.

Segundo ele, é exatamente por isso, que é importante a comunidade LGBT se fortalecer e continuar unida.

"Viemos aqui mostrar que o movimento LGBT tem força sim e muita representatividade e que não vamos deixar que decisões questionáveis enfraqueçam o movimento", concluiu o professor. EFE

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