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Ilha ártica na Noruega quer "parar" o tempo

25/06/2019 10h02

Anxo Lamela.

Copenhague, 25 jun (EFE).- Os habitantes de Sommaroy, uma ilha norueguesa no Círculo Polar Ártico onde o sol da meia-noite reina no verão, iniciaram uma luta contra a rigidez dos horários para se transformar na primeira região onde a contagem do tempo será "abolida".

Por trás de uma campanha com slogans como "Paremos o tempo" e "A primeira região do mundo livre do tempo", que chegou até o parlamento da Noruega, está o desejo de oficializar um sistema mais flexível que se adeque à realidade de um local, onde a luz tem uma influência decisiva no ritmo de vida.

O defensor do projeto é Kjell Ove Hveding, que decidiu fazer uma pausa nos 35 anos de trabalho no mundo empresarial para tentar "recuperar o tempo".

"Ao longo destes anos conheci muita gente que se queixava de estar cansada, de não ter tempo. Isso me fez pensar: Como eu vivo? Tomei uma decisão: parar de usar relógio", explicou Hveding em entrevista à Agência Efe.

Este norueguês começou a mobilizar outros moradores de Sommaroy - cerca de 400 pessoas vivem nesta ilha - em meio às discussões na União Europeia (UE) sobre a possibilidade de acabar com o horário de verão.

No inverno, diz o agora ex-empresário, toda a população de Sommaroy "oge para a ilha espanhola de Gran Canaria para "curar a depressão".

"Perguntamos o que (o horário de verão) significa para nós, já que temos luz todo o verão (70 dias seguidos entre maio e julho). Não significa nada, é quase ridículo", garantiu.

Nesta época, os habitantes de Sommaroy (que em norueguês significa "ilha de verão"), como os de outras zonas árticas, vivem de fato em um ritmo muito diferente: atividades caseiras como aparar a grama são feitas de madrugada. Os horários se tornam muito mais flexíveis.

"Se os jovens de Oslo fizessem como os nossos, mandariam a polícia para buscá-los. Para nós é tão natural que não tenham hora fixa para voltar para casa. Não podemos dizer a eles que devem voltar quando anoitecer, porque então não os veríamos até agosto", explicou o promotor do projeto.

Os moradores de Sommaroy começaram a realizar reuniões, entraram em contato com a agência estatal de inovação e turismo e decidiram em uma assembleia no final de maio enviar um documento às autoridades para que declarassem a ilha a primeira região "livre de tempo".

Hveding viajou a Oslo para entregar o documento a um deputado local e a iniciativa será estudada quando o parlamento debater a questão da mudança de horário após a pausa estival.

"O que queremos é maior flexibilidade sobre a que horas devem abrir as escolas, nos horários de trabalho. Não devemos ser fanáticos, mas diplomatas", explica.

Apesar da iniciativa se concentrar inicialmente no verão, a ideia é estendê-la ao resto do ano, também quando a luz é escassa, embora ainda não haja um plano concreto.

Por trás do projeto também está a ideia de uma vida com menos estresse e de ser "mais impulsivo": os moradores criaram grupos no Facebook onde organizam atividades durante a madrugada aproveitando a luz ininterrupta do verão ártico.

"Temos uma energia única, somos tão afortunados", afirma Hveding, cuja iniciativa recebeu bastante apoio nas redes sociais de outras regiões do Ártico.

O plano para "abolir" o tempo é expressado de forma simbólica com um gesto inspirado em uma viagem recente de Hveding a Praga, na República Tcheca, e a Cracóvia, na Polônia, onde, a exemplo de outras cidades europeias, existe a moda de pendurar cadeados nas pontes.

Os moradores de Sommaroy penduraram seus relógios na ponte que liga a ilha ao continente e sugerem aos turistas que façam o mesmo.

"Esperamos que mais pessoas venham nos visitar, mas sob as nossas premissas. Que venham aproveitar usar região, não só para consumir", defendeu Hveding. EFE

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