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Barcelona vira palco de confrontos após protesto por independência catalã

18/10/2019 22h10

Barcelona (Espanha), 18 out (EFE).- Mais de 500 mil pessoas se reuniram nesta sexta-feira no centro de Barcelona para participar da greve geral convocada como protesto à condenação de nove líderes independentistas da Catalunha pelo Tribunal Supremo da Espanha, um movimento que foi pacífico durante boa parte do dia, mas que terminou em confronto entre outro grupo de manifestantes e as forças de segurança locais.

Segundo a Mossos d'Esquadra, a polícia autônoma da Catalunha, 525 mil independentistas estavam no centro de Barcelona para as manifestações, muitos deles vindos de outras cidades próximas em marchas que começaram logo depois do anúncio da decisão do Tribunal Supremo da Espanha contra os líderes separatistas.

A marcha foi concluída com a leitura de um comunicado na voz de Elisenda Paluzie, presidente da Assembleia Nacional da Catalunha, que defendeu uma nova declaração unilateral de independência, como ocorreu em outubro de 2017, e que motivou as prisões contra as quais os catalães hoje protestam.

"Pedimos aos partidos independentistas que isso não seja uma manobra de dilatação do tempo. Se o diálogo não ocorrer, preparem-se para defender uma declaração unilateral de independência. As pessoas estão nas ruas para defendê-la pacificamente", disse Paluzie.

VIOLÊNCIA PARALELA

Ao contrário do caráter pacífico do movimento principal, um protesto paralelo foi marcado pela violência e pelos confrontos entre manifestantes mascarados e policiais.

O ministro do Interior da Espanha, Fernando Grande-Marlaska, disse em entrevista coletiva que 207 agentes foram feridos desde o início dos protestos na última segunda-feira. Hoje, um policial foi levado ao hospital após os enfrentamentos registrados nos arredores da sede da Polícia Nacional em Barcelona.

Segundo o ministro, um grupo de 400 independentistas é o responsável pelos incidentes. Os manifestantes mascarados estariam agindo de "forma organizada" contra os policiais em uma área específica da cidade.

Grande-Marlaska afirmou que várias pessoas foram presas, destacando a detenção de dois integrantes de um grupo de extrema direita identificados como autores de uma agressão a um jovem que participava de outro protesto contra o governo central da Espanha.

Pelo tumulto nos arredores da Polícia Nacional, dez pessoas foram presas, entre elas quatro menores de idade. Desde a segunda-feira, a Justiça decretou a prisão provisória para nove radicais que haviam se infiltrado nos protestos separatistas.

Além dos 207 agentes feridos, o ministro lamentou as quase 800 lixeiras queimadas ao longo das manifestações nos últimos dias. Mais de 100 veículos da Polícia Nacional da Espanha e da Mossos d'Esquadra também foram danificados nos protestos.

GRAVES INCIDENTES DURANTE A NOITE

Com a chegada da noite, algumas ruas centrais de Barcelona viraram palco de guerra entre extremistas e agentes. Até o início da madrugada, o balanço de feridos era de 89.

Na Via Laietana, perto da Chefia Superior da Polícia Nacional, os agentes dispersaram com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha vários grupos de manifestantes que tinham incendiado barricadas, lançavam fogos de artifício, pedras e garrafas de vidro contra as forças de segurança.

A intensidade da ação dos manifestantes fez com que, pela primeira vez em 25 anos, a Mossos d'Esquadra cogitasse usar furgões com canhões de água contra os protestos. No entanto, os agentes conseguiram abrir passagem sem recorrer ao uso dos veículos.

ADESÃO MODERADA À GREVE

A adesão à greve geral de hoje na Catalunha foi moderada na atividade industrial. No comércio, 50% das lojas não abriram as portas, mas muitos comerciantes não foram trabalhar por medo de que os estabelecimentos fossem depredados. Parte das empresas também permitiu que seus funcionários participassem das mobilizações e algumas até facilitaram o deslocamento dos trabalhadores até o centro de Barcelona.

Os problemas no trânsito devido aos protestos atrapalharam a vida da cidade desde o início da manhã, uma situação que se agravou com a chegada das marchas que vieram de outras cidades da região para a capital catalã.

Convocada por sindicatos independentistas, a greve provocou o cancelamento preventivo de 55 voos no aeroporto de Barcelona, que, apesar dos protestos, conseguiu operar normalmente.

Segundo o governo regional da Catalunha, as universidades foram o setor que mais aderiu à paralisação, com 90% de participação. A menor adesão ao movimento foi entre os trabalhadores da saúde, com apenas 20% da categoria participando do ato.

FIRMEZA DO GOVERNO ESPANHOL.

Depois de cinco dias de protestos, o presidente do governo da Espanha, Pedro Sánchez, afirmou nesta sexta-feira que o Estado de direito "não pode ceder ao impulso da exaltação" e avisou o presidente regional da Catalunha, Quim Torra, sobre o "perigo de banalizar a violência".

De Bruxelas, na Bélgica, onde participava do Conselho Europeu, Sánchez prometeu que não haverá impunidade para os que estão cometendo atos de vandalismo nos últimos dias e fez um alerta sobre os "efeitos graves" que os protestos podem ter sobre a economia do país.

O líder do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) ainda afirmou que qualquer decisão que for tomada sobre a Catalunha está prevista nas leis e prometeu agir sob os princípios de "firmeza democrática, unidade e proporcionalidade".

PUIGDEMONT SE ENTREGA À JUSTIÇA BELGA

A poucos quilômetros de Sánchez, o ex-presidente regional da Catalunha Carles Puigdemont se apresentou à Justiça da Bélgica devido ao mandado europeu de prisão expedido contra ele por um juiz da Espanha.

Colocado em liberdade sob medidas cautelares, Puigdemont terá que comparecer no próximo dia 29 de outubro em uma audiência em um tribunal de Bruxelas.

Sobre a situação de Puigdemont, o ministro do Interior da Espanha disse que o líder independentista catalão "deve e pode" ser extraditado para ser julgado no país.

INVESTIGAÇÃO SOBRE OS RADICAIS

Enquanto isso, a Justiça da Espanha investiga a organização Tsunami Democràtic por indícios de terrorismo por ter promovido a violência nos protestos independentistas realizados nos últimos dias em Barcelona e outras cidades da Catalunha.

O juiz Manuel García Castellón, da Audiência Nacional da Espanha, determinou nesta sexta-feira que páginas do grupo na internet sejam tiradas do ar e que perfis nas redes sociais sejam deletados, medidas que fazem parte de uma investigação mais ampla contra a organização.

García Castellón já havia determinado a prisão de sete integrantes dos chamados "Comitês de Defesa da República" (CDR) por acusações de terrorismo. EFE

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