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Na Tailândia, descrença e fé protagonizam dilema sobre maconha medicinal

24/10/2019 07h15

Gaspar Ruiz-Canela.

Ratchaburi (Tailândia), 24 out (EFE).- A maconha medicinal, que começou a ser receitada em agosto na Tailândia para atenuar sintomas como a dor ou a falta de apetite, despertou um excesso de fé em alguns pacientes, que acreditam que ela pode curar até o câncer, apesar da falta de evidências científicas.

A Tailândia legalizou a cannabis terapêutica em dezembro do ano passado e se transformou no primeiro país a fazê-lo no Sudeste Asiático, embora seu fornecimento legal tenha atrasado vários meses devido às dificuldades logísticas e de regulação.

Receitada de forma experimental para pacientes com câncer em 13 hospitais tailandeses, a maconha é administrada para combater a dor e os efeitos secundários de tratamentos como a quimioterapia e a radioterapia. Porém, nenhum estudo científico provou que ela cure o câncer.

No hospital público de Ratchaburi, uma capital provincial ao sudoeste de Bangkok, Sutbantad Dechwises, um paciente de 68 anos com câncer mostra um contagotas de 5 mililitros de óleo de cannabis produzido pelas autoridades tailandesas. A indústria da maconha medicinal, em breve, pode movimentar o equivalente a R$ 900 milhões no país.

"O óleo de maconha me ajuda, em primeiro lugar, a parar a dor. Em segundo, a comer bem. Em terceiro, a dormir mais tempo e, em quarto, a reduzir os níveis de câncer", contou Sutbantad à Agência Efe, embora admitindo que os médicos tenham explicado que não há evidências de que o princípio poderia curar o câncer.

Professor do antigo idioma pali em um templo local, ele foi diagnosticado com câncer nos testículos há nove anos e, mais tarde, foi detectada metástase em sua espinha dorsal.

Sutbantad, que caminha com a ajuda de uma muleta, começou a tomar maconha medicinal de maneira ilegal no início do ano e, há um mês e meio, de maneira regulada no hospital de Ratchaburi.

Embora a cannabis tenha sido receitada para amenizar os efeitos secundários, como a dor e a falta de apetite e de sono devido a um tratamento de hormônios que faz, ele garante que o medicamento reduziu o câncer e, por isso, decidiu abandonar as sessões de radioterapia há meses.

No entanto, a médica do professor, Kireewan Sangarkard, reiterou que, atualmente, não há evidências de que a cannabis seja eficaz contra as células cancerígenas.

"Eu acho que (Sutbantad) deveria receber a radioterapia", afirmou a médica em seu pequeno consultório, onde recebe ligações e visitas de pacientes interessados no tratamento.

Por enquanto, o hospital fornece tetrahidrocannabinol (o princípio psicoativo da maconha, também conhecido como THC) a cinco pacientes com câncer. Outros três estão na lista de espera, e dezenas de pessoas já apresentaram solicitações para receber o tratamento.

Além da desinformação de alguns de seus pacientes, a médica enfrenta, também, a rejeição à maconha medicinal por parte de vários colegas, seja por razões morais ou ceticismo.

Dos quatro médicos aptos em Ratchaburi a ministrar maconha medicinal, três passaram a rejeitar o tratamento, de modo que só sobrou Kireewan para atender dezenas de pacientes que procuram o hospital em busca de cannabis medicinal.

De qualquer forma, a médica comemora que o tratamento seja gratuito e que os pacientes não tenham que pagar até 3000 bahts (cerca de R$ 395) por frasco de cannabis não regulamentado, que costuma ser vendido em clínicas ilegais ou pela internet.

"No futuro, também se beneficiarão pacientes com epilepsia, Parkinson, Alzheimer, etc", previu com otimismo a médica.

A maconha ("ganja" em tailandês) era usada antigamente como um remédio natural para diversos males tanto na Tailândia como em outros países asiáticos. Até mesmo o conhecido templo Pho, em Bangcoc, exibe em suas paredes placas inscritas com receitas de cannabis.

Porém, influenciadas pelos países ocidentais, as autoridades tailandesas criminalizaram a maconha nos anos 1930 e, hoje em dia, a posse ou transporte dessa droga são punidos com até 15 anos de prisão.

Mesmo diante das duras penas de prisão, grupos clandestinos começaram, há mais de dez anos, a distribuir maconha medicinal entre pacientes com câncer e outras doenças. Algumas dessas redes ainda estão ativas e, inclusive, a vendem ilegalmente na internet. Porém, Kireewan alerta que, às vezes, o excesso de THC nos produtos clandestinos pode causar arritmias e outros efeitos colaterais.

No ano passado, a Tailândia surpreendeu ao mundo ao legalizar, sob um governo militar (dissolvido neste ano após as eleições de março), a maconha medicinal. O país é o terceiro a fazê-lo na Ásia, atrás apenas de Israel e da Coreia do Sul.

Atualmente, há pelo menos duas plantações de maconha controlada pelas autoridades, que distribuem três tipos de remédios: com THC, com CBD (cannabidiol, outro componente da planta da cannabis) e uma mistura de THC e CBD.

O exemplo da Tailândia encorajou outros países da região, como Laos e Malásia, a debaterem a possibilidade de legalização da maconha medicinal no futuro. Por sua vez, o Sri Lanka já permite o cultivo limitado para a exportação e produtos ayurvédicos, referentes à medicina tradicional da Índia.

Segundo a empresa de consultoria Prohibition Partners, o mercado da maconha medicinal na Tailândia pode chegar, em 2024, a US$ 237,2 milhões (R$ 955 milhões), caso ela seja legalizada de forma generalizada no continente. EFE