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Alto custo dos remédios no Chile desperta ira contra a indústria farmacêutica

09/12/2019 10h18

Patricia Nieto Mariño.

Santiago (Chile), 8 dez (EFE).- Cansados dos problemas de abastecimento público de medicamentos e dos elevados preços das farmácias privadas, que vendem os remédios de marca mais caros da América Latina, os cidadãos chilenos estão se voltando contra a indústria farmacêutica desde o início da crise social no país.

Durante as noites, as imagens das câmaras de segurança de diversas farmácias mostram grupos de encapuzados que levam caixas de remédios das gôndolas. Nas tardes, o profissionais de saúde, aposentados e jovens usam cartazes para pedir a redução dos preços dos medicamentos.

Uma das principais reclamações dos cidadãos em relação às farmácias é que esses estabelecimentos não convertem os lucros em benefícios para a população. Segundo dados oficiais, em 2018 foram registrados US$ 1,514 bilhão em vendas para consumidores finais.

De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), os chilenos são os que mais gastam com medicamentos e os que mais investem em remédios de marca.

Um estudo realizado em outubro de 2019 pelo Serviço Nacional do Consumidor do Chile (Sernac) identificou uma diferença de até 181 mil pesos (cerca de R$ 970) entre os preços de medicamentos originais de marca e genéricos.

Por exemplo, no caso do medicamento com ingrediente ativo Atorvastatina 20 mg de 30 unidades, indicado para a redução do colesterol, com a marca original Lipitor (54.590 pesos - cerca de R$ 290) um consumidor poderia comprar até 29 caixas de medicamentos genéricos, que custam 1.880 pesos (R$ 10).

A saúde pública chilena, da qual mais de 75% da população se beneficia, conta com um sistema que fornece medicamentos para farmácias e hospitais públicos, que oferecem preços mais baixos e até gratuitos para os maiores de 60 anos e para os mais pobres.

No entanto, a escassez e o tempo de espera nos centros de saúde lotados resultou na insatisfação geral da população.

GESTÃO PÚBLICA DEFICIENTE.

O serviço de fornecimento de medicamentos da saúde pública tem um sistema de Garantias Explícitas de Saúde (GES), que determina quais medicamentos estão disponíveis nos estabelecimentos públicos.

Ainda assim, segundo o relatório da Procuradoria Nacional de Economia sobre a indústria farmacêutica, "a regulamentação existente não assegura nem garante o acesso a estes medicamentos".

José Cienfuegos, vice-presidente do Conselho de Farmacêuticos, explicou à Agência Efe que as demandas por medicamentos para doenças básicas às vezes não são atendidas, e que "o Cenabast (entidade que fornece medicamentos para o setor público) não está cobrindo 100% do abastecimento".

Mariela Maturana, que está desempregada aos 57 anos, não pode trabalhar devido à fibromialgia e gasta mais de 150 mil pesos (aproximadamente R$ 790) por mês em medicamentos. A doença não se enquadra nas patologias do GES, portanto deve pagar a totalidade do tratamento.

A FAMA DAS REDES FARMACÊUTICAS.

Apesar das opções públicas de compra de medicamentos, as deficiências do sistema levam 48% dos chilenos a preferir comprar em redes privadas, que vendem produtos a preços substancialmente mais altos.

As três maiores redes farmacêuticas do Chile (Cruz Verde, Salcobrand e FASA), que em 2008 foram condenadas por conluio de preços em mais de 222 medicamentos, foram retaliadas durante os protestos, com algumas lojas incendiadas e saqueadas como resultado do descontentamento popular.

A procuradoria revelou que as redes de farmácias privadas pagam 70% mais aos laboratórios que o setor público, números que mudaram o foco do debate sobre a margem de lucro delas. Além disso, os dados podem explicar os preços elevados nas farmácias privadas em comparação com as públicas.

"Parece que os laboratórios têm um papel importante porque vendem muito mais caro para as farmácias do que para o governo. Isso mostra onde está o dinheiro", explicou Juan Pablo Atal, acadêmico especializado em economia sanitária.

Os laboratórios, que, de acordo com a procuradoria, investem mais de US$ 200 milhões por ano para promover marcas entre os médicos, estabeleceram uma cultura que faz 90% da população adquirir esse tipo de produto em detrimento aos genéricos.

Sebastián Castro, advogado da Procuradoria Nacional de Economia, explicou que é o médico que administra a demanda por medicamentos de marca ao prescrever medicamentos aos pacientes.

"Cerca de 42% dos médicos recebem informações sobre medicamentos de visitantes e congressos, a maioria dele financiados por laboratórios", acrescentou o advogado.

O sistema de marketing de medicamentos, promovido por laboratórios e apoiado por alguns médicos, e a ineficiência do sistema público geram a espiral de preços altos que tem levado ao descontentamento social com a indústria farmacêutica.

Segundo o presidente da Cenabast, Valentín Díaz, "o Estado não tem sido suficientemente assertivo para intervir no mercado e, ao mesmo tempo, as pessoas têm sido deixadas indefesas diante desses poderes da indústria farmacêutica". EFE