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Gustavo Petro e a longa espera da esquerda para governar a Colômbia

05/08/2022 22h51

Irene Escudero.

Bogotá, 5 ago (EFE).- Gustavo Petro toma posse no domingo como primeiro presidente de esquerda da Colômbia, concluindo um caminho percorrido sem sucesso por outros políticos do mesmo espectro ideológico que chegaram a sofrer perseguições, ameaças e até assassinatos.

A chegada de um ex-guerrilheiro à presidência colombiana - embora Petro goste de ser chamado de revolucionário - é quase tão significativa quanto o fato de que agora ele terá à mão a espada de Simón Bolívar, roubada há 48 anos da Quinta de Bolívar pelo grupo guerrilheiro do qual ele mesmo era membro, o Movimento 19 de Abril (M-19).

Após a desmobilização desse grupo guerrilheiro urbano, a espada foi devolvida ao Estado colombiano e agora está guardada na Casa Nariño, sede da presidência e local de trabalho do novo presidente a partir de domingo por um mandato de quatro anos.

DEMONIZAÇÃO DA ESQUERDA.

Petro conseguiu algo que era impensável há algumas décadas. Carlos Pizarro, um ex-comandante do M-19 e o primeiro ex-guerrilheiro a concorrer à presidência, foi assassinado em 1990, quando liderava pesquisas de intenção de votos (com 60% da preferência), em um crime que foi atribuído ao Departamento Administrativo de Segurança (DAS), a extinta agência de inteligência da Colômbia.

"Os melhores quadros - homens e mulheres - da esquerda colombiana morreram na tentativa (de chegar à presidência), foram assassinados por suas crenças, por sua ideologia, por suas posições políticas", lembrou a filha de Pizarro, María José Pizarro, senadora pelo mesmo partido de Petro, o Pacto Histórico.

Este não foi um caso isolado. Na mesma campanha, o candidato pela União Patriótica (um partido de esquerda que surgiu após uma tentativa fracassada de paz com as Farc em 1985), Bernardo Jaramillo Ossa, também foi assassinado. A legenda, por sua vez, sofreu um genocídio no qual 5.195 de seus membros foram mortos ou desapareceram, de acordo com números da Jurisdição Especial para a Paz (JEP), tribunal criado para julgar crimes de guerra e contra a humanidade no contexto do conflito entre forças do governo da Colômbia e guerrilhas ou grupos paramilitares.

"É um evento histórico após praticamente dois séculos de hegemonia dos partidos tradicionais que tentam destruir um processo democrático há muitos anos, assassinando a oposição política", disse Aída Avella, presidente da União Patriótica - agora parte da futura coalizão governamental - e que passou mais de 15 anos no exílio após sofrer uma tentativa de assassinato.

É normal que "em um país existam opiniões políticas diferentes", disse ela à Agência Efe, mas na Colômbia não foi assim, e a militância às vezes foi paga com a própria vida.

Durante mais de 30 anos houve uma "liderança acéfala" da esquerda colombiana, disse María José Pizarro.

A decolagem da esquerda começou em 2018, quando Petro ficou em segundo lugar nas eleições presidenciais, e "uma nova geração da esquerda" chegou ao Congresso, como definiu Pizarro. O acordo de paz de 2016 com as Farc, o cansaço dos cidadãos com a política tradicional e a corrupção e os protestos populares maciços de 2019 e 2021 permitiram esse cenário.

GOVERNO PARA TODOS.

As ideias essenciais de Petro assemelham-se às do fundador do M-19, Jaime Bateman, há quase meio século, que falava sobre "o povo morrendo de fome" e propôs "o diálogo entre colombianos".

Agora distante das ideias mais radicais e no caminho do pragmatismo, Petro se voltou para um tema central para seu governo: um acordo nacional que inclui a maioria dos colombianos, mesmo aqueles que não votaram nele.

Assim, entre suas nomeações para o gabinete ministerial, ele premiou a experiência - sobretudo em termos de idade - escolhendo pessoas de todas as correntes políticas, como o conservador Álvaro Leyva no Ministério das Relações Exteriores, um homem com experiência em negociações de paz, e a liberal Cecilia López na pasta da Agricultura, onde ela terá diante de si a ampla tarefa da reforma agrária tão prometida e tão pouco cumprida na Colômbia.

Também há algumas nomeações simbólicas, como a de Leonor Zalabata, uma mulher indígena, como chefe da diplomacia com a ONU, e a de Luis Gilberto Murillo, ex-ministro do Meio Ambiente, para a embaixada em Washington (EUA).

Por enquanto, o presidente eleito também garantiu a si mesmo uma maioria no Congresso, com o apoio de várias alas, o que, em princípio, lhe permitirá levar adiante suas principais propostas, como a reforma tributária com a qual ele pretende arrecadar 50 trilhões de pesos (cerca de US$ 11,5 bilhões) atacando sonegadores de impostos e taxando fortunas.

As aspirações da Petro também incluem a retomada das negociações com o Exército de Libertação Nacional (ELN), uma política ambiental ambiciosa para uma transição energética que tire a Colômbia de sua dependência do carvão e do petróleo, reforma agrária e medidas para a segurança alimentar e para impulsionar a produção de alimentos no país.

Pizarro prevê, entretanto, que "não vai ser algo fácil".

"Hoje temos um governo de coalizão muito amplo, mas temos que ver quanto tempo vai durar esse casamento feliz e se ele vai começar a desmoronar, porque em algumas posições temos interesses completamente diferentes", reconheceu. EFE