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Brasília 50 Anos

15/04/2010 - 21h10

Brasília revive clima da inauguração em polêmico setor que promete ser o 1º bairro ecológico do país

Rodrigo Bertolotto
Enviado especial do UOL Notícias
Em Brasília

Cerrado derrubado, obras de terraplanagem, construção de ruas. As cenas típicas da construção de Brasília no final da década de 1950 se repetem neste momento. Só mudam a região do Distrito Federal e o ritmo da obra. O setor Noroeste foi previsto pelo urbanista Lúcio Costa e se anuncia como o primeiro bairro ecológico do Brasil, com auto-suficiência energética e hídrica. Mas logo surgiu a primeira polêmica, porque o bairro se localizaria sobre um aquífero. Depois veio a ação judicial de índios que moram na região há 40 anos.

 

Também por conta do imbróglio político após o escândalo de corrupção que afastou o governo distrital, as obras estão em ritmo lento na área. “Está bem parado”, define Vicente Ribeiro, encarregado de terraplanagem de uma das empresas do empreendimento – muitas estão sem receber desde que José Roberto Arruda foi afastado.

Operários jogam baralho e tiram um cochilo no meio do expediente. O número deles também parece insuficiente para empreendimento para 40 mil moradores em 220 prédios dentro de 24 quadras residenciais sobre 825 hectares. Os responsáveis já falam em 15 anos para terminar, ou seja, bem mais que o triênio em que a capital foi erguida por Juscelino Kubitschek.

“A gente conversa com os índios, mas não entra com máquina lá nas terras deles”, conta o laboratorista Marcos José, que trabalha nas obras do último setor do Plano Piloto a ser construído. Ele comprou um arco e um par de flechas e tirou foto com seu celular ao lado dos índios, que habitam a mata próxima ao canteiro.

Na maioria da tribo fulni-ô, os indígenas denunciam que o marketing ecológico da incorporação tem por trás a derrubada da vegetação e a expulsão deles de lá. “A gente está fazendo ronda dia e noite para que não entrem os tratores deles aqui”, conta o pajé Kaftiô, que comanda rituais de cura e vende ervas terapêuticas para os visitantes desse pedaço de cerrado. “Aqui é uma rota de pajés, não pode ser derrubada assim”, argumenta

Propaganda é a alma do negócio

  • Rodrigo Bertolotto/UOL

    À beira de estrada, vendedor de caqui passa ao lado de outdoor anunciando o setor Noroeste

Para chegar ao terreno indígena é preciso pegar uma estrada de terra, passar por placas com declaração das Nações Unidas sobre o direito indígenas e ultrapassar arbustos com ossada de uma cabeça de boi e avisos que ali há pajelança. “A gente tem apoio dos ecologistas e de universitários. Vamos pressionar para que parem as obras”, afirma Kaftiô, em meio a galinhas ciscando e cachorros latindo.

Esses índios chegaram por lá nos primeiros anos do Distrito Federal e reivindicam há décadas a demarcação. O que o cacique Santiê ocupa mesmo é uma loja que vende ervas no térreo da sede da Funai (Fundação Nacional do Índio), mas não dá declarações à imprensa até a decisão judicial – eles ficariam com 20 hectares, mas querem mais.

Na rodovia vizinha ao empreendimento, outdoors vendem a iniciativa, com os slogans “facilitar sua vida e gerar empregos” e “mais conforto e qualidade de vida”.

A promessa é que o bairro tenha painéis de energia solar, captação de água de chuva, tratamento do lixo para gerar gás e sistema de transporte que reduza a utilização de carros particulares.
Longe do clima de pioneirismo dos primeiros anos, Brasília segue sua expansão. Prova disso é outra construção, intitulada “o maior canteiro de obras da América Latina”. É o bairro de Águas Claras, com prédios de classe média alta e alta na vizinhança de Taguatinga. Como no setor Noroeste, o público-alvo são os filhos dos moradores do Plano Piloto que já não encontram lugar nas asas do plano urbanístico original da capital, mesmo com o preço da expulsão de indígenas.

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