UOL Notícias Notícias
 
Brasília 50 Anos

19/04/2010 - 07h01

Pioneiros da construção resistem no Plano Piloto e criticam destino de Brasília

Rodrigo Bertolotto
Enviado do UOL Notícias
Em Brasília

Na comemoração dos 40 anos de Brasília em 2000 já eram poucos. Agora restam menos ainda. Rosental Ramos da Silva, conhecido como “o cozinheiro de JK”, morreu em 2005, deixando seu restaurante de comida mineira para a viúva tocar. O local ficava em uma viela da Vila Planalto, bairro popular que teimou em permanecer a metros do palácio da Alvorada. Por lá, os remanescentes construtores da capital ficam de prosa na praça central.

Embaixo de uma mangueira, o mineiro Alderico de Almeida, 92, e o cearense José Juvenal Ramalho, 81, falam sobre o bairro e a cidade. Mas eles não compartem do entusiasmo oficial dos festejos, com relógio de contagem regressiva e outdoors com dizeres como “Comemorar Faz Bem”.

“Hoje me sinto um prisioneiro em Brasília porque não podemos passear à beira do lago Paranoá. Não posso mostrar para meu neto o lago que ajudei a represar. É tudo clube de bacana, e a população não tem acesso”, reclama Ramalho.

Já Alderico, que trabalhou como eletricista, relembra a dificuldade para permanecer no bairro popular próximo ao poder. “Aqui quando chovia era lama, quando não chovia era aquela poeira. A gente resistiu aqui e melhorou muito. Minha casa ainda é em parte de madeira. Muito político quis tocar a gente daqui para Samambaia, uma cidade-satélite.”

A Vila Planalto está localizada mais especificamente entre o palácio do Planalto e o palácio da Alvorada, respectivamente o local de trabalho e a moradia do presidente. O bairro tem cerca de 1000 lotes residenciais e 7.000 moradores.

Destino diferente teve a Vila Amaury, submersa sob o lago artificial e com as 4.000 famílias retiradas para a Taguatinga e Sobradinho em fevereiro de 1960 - a "operação caramujo" criou uma espécie de Atlântida candanga sob o Lago Paranoá. A Vila Planalto era uma favela de barracos, esgoto a céu aberto e rua de terra. Hoje, sofre com a especulação imobiliária que já ergueu sobrados de classe média em meio aos casebres, afinal, a localização é privilegiada.

Outros pioneiros estão em situação melhor, como o homem apelidado de “o jardineiro de Brasília”. Osana Coelho plantou quatro milhões de árvores e hoje desfila sua aposentadoria à sombra de algumas delas.

Pioneiro lembra da lama e poeira

“Plantaram primeiro árvores exóticas que não vingaram no Planalto. Entrei na Novacap [empresa construtora da capital] em 1969 e escolhemos 75 espécies do cerrado, entre ipês, quaresmeiras e copaíbas. Hoje, a cidade parece uma floresta com os blocos servindo como clareira, como Lúcio Costa queria”, conta o jardineiro, que mora há 31 anos no Lago Norte.

Já Ernesto Silva, 95, apelidado de “o pioneiro do antes”, foi quem recebeu Juscelino Kubitschek. Em 2 de outubro de 1956, ele recebeu JK na então Fazenda do Gama – uma foto do dia mostra os dois entre porcos e galinhas, com o presidente tomando café e Ernesto com um mapa na mão.

Após ser o responsável pela implantação do sistema educacional e de saúde, Ernesto também teve de negociar com os trabalhadores dos barracões para as cidades-satélites. Ele já se disse decepcionado com a cidade “projetada para 500 mil pessoas e habitada na verdade por cinco vezes mais”.

Atual presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, Affonso Heliodoro foi o subchefe do gabinete civil de JK, função na qual era a primeira e a última pessoa que o idealizador de Brasília via diariamente, passando os informes e a agenda. O fascínio com o ex-chefe é tanto que colou no carro um adesivo com a frase: “JK. Procura-se Outro”. Nestes dias, mal pôde receber a imprensa porque acompanha sua mulher hospitalizada. Já ele está perfeito aos 93 anos.

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    09h19

    -0,09
    3,742
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h24

    -1,21
    103.451,93
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host