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Brasília 50 Anos

21/04/2010 - 07h01

Proximidade com o poder pode gerar lucro ou prejuízo para brasilienses

Rodrigo Bertolotto
Enviado do UOL Notícias
Em Brasília

O taxista acaba engarrafado atrás de uma comitiva oficial e seu passo lento. O engraxate lucra nos minutos antes do embarque. O maître serve a oposição ao governo. O porteiro só fica tranquilo no fim-de-semana, quando deputados e famílias voltam para seus Estados. A população itinerante de poderosos passeia de terça a quinta por Brasília, ditando o ritmo de vida dos moradores permanentes que vivem perto do poder.

 

“Tem uns engravatados que furam a fila, e a gente não pode falar nada. Vai que é algum poderoso. Ainda a gente arrisca perder o emprego. O pessoal da fila reclama, mas eu tenho de aguentar xingamento.” Edílson Pereira de Souza, 57, controla os táxis que saem do aeroporto de Brasília.

De segunda a quarta, a fila de clientes serpenteia pelo saguão, bloqueando as entradas de lojas e irritando a Infraero, empresa estatal que gerencia o local.

Baiano de Maragogipe, Edílson só se acalma da quinta-feira em diante, quando os visitantes batem em retirada. “Além de controlar 1.000 táxis e organizar a fila de passageiros, vem esses carros oficiais e invadem nossa área e nem podemos falar nada”, se queixa.

Quando Edílson descansa é hora de Roberto Gonçalves Pereira colocar a mão na graxa. Isso porque ele é um dos funcionários da engraxataria do aeroporto, muito acionada pelos políticos e empresários antes de embarcarem de volta para seus Estados.

O cearense é precavido no trato com os fregueses, ainda mais depois do escândalo de corrupção do governo do Distrito Federal. “Tem político que brinca para eu não mexer na meia porque está recheada de dinheiro”, conta. “Só falo de política se me perguntarem. Mesmo assim, só opino depois de saber se o cliente é do governo ou da oposição. Não posso perder o freguês”, completa.

Roberto já foi pedreiro e porteiro em Brasília, mas viu no lustro seus rendimentos aumentarem. Cobra R$ 13 e, mesmo com o Congresso dando engraxate de graça, muitos parlamentares preferem seu serviço. “Aqui não tem fila e nosso trabalho é bom.” O trabalho é dobrado entre agosto e dezembro, quando a seca bate forte no Planalto Central. Os couros secam, racham e estão sempre cobertos pela poeira que domina a capital.

Já Francisco Venâncio Peixoto, 65, tem uma relação quase íntima com os congressistas. “De tanto que a gente se acostumou com eles, fica até chateado quando um político não se elege ou vai assumir outro cargo”, relata o porteiro do bloco J da superquadra 202 norte, todo ocupado com apartamentos funcionais de deputados.

Saído o parlamentar, seu Francisco se encarrega de trocar o miolo da chave do imóvel para receber outro político. “Vem muito jornalista aqui atrás de boato, fofoca. Eles querem saber quem é mulherengo, quem gosta de beber, mas a gente não diz nada”, revela um dos segredos por que está há 31 anos no posto.

Não lembra nenhum quiproquó parecido ao que aconteceu à vizinha superquadra 302 em 2005, quando o oposicionista Roberto Jefferson cantava ópera e mobilizava a vizinhança durante o escândalo do mensalão.

Outra relação bem próxima é a do mineiro Nei Bernardo da Silva, que trabalha como maître no Piantella, restaurante que é tradicionalmente visto como prolongamento do Congresso. “Caiu o movimento depois que o Lula virou presidente. Parece que os petistas não gostam daqui. Acho que eles gostam de churrascaria. O Lula mesmo já veio três vezes como presidente, mas agora tem mais freqüentadores da oposição”, opina entre os candelabros, cadeiras aveludadas e mesas cor de marfim do ambiente refinado.

O fim da ditadura e a abertura política desfilaram por lá, degustando cavaquinhas, steaks moscovitas e profiteroles. “Vinha o Tancredo [Neves], Teotônio [Vilela]. O Ulysses [Guimarães] tinha até mesa reservada”, conta Nei, mostrando um painel com fotos do peemedebista que inclui até um cheque não descontado de agosto de 1985.

“Na época, a gente dividia oposição e governo em diferentes salões, mas eles se encontravam e até riam juntos. Aqui, eles eram amigos”, conta o maître, que tem um filho trabalhando como sommelier do restaurante marco da cidade.

Mas a proximidade com o poder também tem seus prejuízos: os acidentes de trânsito são comuns quando as comitivas e batedores entram no caminho. A reportagem do UOL Notícias testemunhou um engavetamento de quatro carros após um ônibus militar entrar em uma avenida graças aos batedores terem freado abruptamente o trânsito. “Esses caras entram com tudo, e quem estiver distraído acaba batendo. Vejo isso várias vezes por dia”, conta o taxista Edno Araújo.

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