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25/03/2009 - 22h20

Potências deixaram de buscar supremacia nuclear, afirma estrategista

[selo]
Thiago Scarelli Do UOL Notícias Em São Paulo

Hiroshima e Nagasaki

AP
Duas bombas atômicas foram utilizadas em conflito militar até hoje: as ogivas lançadas pelos Estados Unidos nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki em 6 e 9 de agosto de 1945, respectivamente. A ação ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial e foi decisiva para que o Japão abandonasse o conflito

Cinco décadas depois de o mundo viver o medo da aniquilação atômica, a ordem mundial deixou de ser bipolar e os países pararam de competir entre si em busca de poder nuclear, de acordo com a análise de um especialista em estratégia militar entrevistado pelo UOL Notícias, que aponta o Irã como a principal ameaça na contramão dessa tendência.

Estima-se que Estados Unidos e Rússia, juntos, ainda detenham mais de 10 mil ogivas nucleares. Mas, ao contrário do que acontecia durante as décadas da chamada Guerra Fria, as potências mundiais emergentes conseguem se consolidar mesmo sem controlar armas nucleares estratégicas, o que reduz a tensão internacional e os riscos de deflagração de um conflito irreversível.

"É claro que a bomba atômica ainda é um enorme instrumento de dissuasão, mas hoje as grandes potências não precisam de armas nucleares para se legitimar", afirma o coronel reformado Geraldo Cavagnari, fundador do Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade de Campinas.

"Paquistão e Índia desenvolveram programas nucleares na esteira da corrida armamentista, mas este não é mais o cenário", acrescenta Cavagnari. "Japão e Alemanha, por exemplo, são potências econômicas que hoje teriam condições para dominar esta tecnologia nuclear, mas não demonstram interesse nesse sentido. As duas possuem um exército tradicional de alto nível e consideram que esta é uma condição militar suficiente".

Infográfico

  • Veja infográfico interativo com um panorama da energia nuclear aplicada em armamentos estratégicos e na geração de energia elétrica pelo mundo

Oficialmente, fazem parte do chamado "clube nuclear" Estados Unidos, Rússia, França, Reino Unido, China, Índia e Paquistão. Centros de estudo internacionais como o Center for Defense Information (CDI) e o Nuclear Threat Initiative (NTI) consideram que Israel também tenha ogivas, enquanto a Coreia do Sul teria condição imediata para produzi-las, mas não há confirmação em nenhum dos dois casos.

Para Cavagnari, esse é um grupo limitado que deverá se manter estável nos próximos anos. "O acesso à construção de ogivas nucleares é hoje limitado por três fatores: a complexidade tecnológica deste tipo de arma, seu alto custo financeiro e a legislação internacional que reprime essa iniciativa", explica o analista.

O fator "Irã"

A grande exceção neste processo de abandono das armas nucleares estratégicas seria o Irã, país acusado por Estados Unidos e Israel de buscar enriquecer urânio com fins militares. O governo iraniano nega essa versão e alega estar interessado apenas em geração de energia elétrica.

Tratado de Não-Proliferação

De acordo com o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, lançado em 1968, os países que oficialmente produziram ogivas nucleares antes de 1967 (Estados Unidos, Reino Unido, Rússia, China e França) se comprometem em não transferir tecnologia nuclear nem ajudar ninguém a consegui-la. Em contrapartida, os Estados signatários recebem apoio da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) para utilizar tecnologia nuclear para fins pacíficos. Índia, Israel e Paquistão nunca assinaram o Tratado de Não-Proliferação Nuclear; Coreia do Norte assinou o compromisso, mas se retirou em 2003

"Eu acredito que o Irã caminhe para a construção da bomba", afirma Cavagnari. "Principalmente porque o Irã tem dinheiro para isso, recebeu tecnologia nuclear do Paquistão no passado - não se sabe ao certo quão detalhada, mas recebeu - e se trata de um país autoritário, que declara abertamente querer varrer Israel do mapa".

Além das supostas ambições do Irã em entrar para o "clube nuclear", existem suspeitas sobre o programa nuclear da Coreia do Norte, que já teria capacidade para construir entre 5 e 12 ogivas, segundo estimativas do CDI e do NTI. A falta de recursos da Coreia do Norte, no entanto, seria uma barreira para seu programa nuclear.

A monitoração dos programas nucleares de Irã e Coreia do Norte é uma das atividades realizadas atualmente pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão vinculado à Organização das Nações Unidas e que fiscaliza o uso de tecnologia nuclear no mundo.

No Brasil

Por sua parte, o Brasil perseguiu o objetivo de alcançar uma arma nuclear estratégica nas décadas de 1950 e 1960, mas encontrou dificuldades tecnológicas e financeiras para isso. Segundo Cavagnari, quando o país firmou um acordo com a Alemanha para a compra da usina de Angra 2
, a cúpula militar brasileira já havia abdicado da ambição nuclear.

  • Rafael Andrade/Folha Imagem

    O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebe seu par francês, Nicolas Sarkozy, em dezembro de 2008. Na ocasião, foi assinado um acordo entre os dois países que previa a construção conjunta de um submarino nuclear brasileiro

Atualmente, as pesquisas atômicas brasileiras na área militar, realizadas principalmente pelo Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo, dizem respeito ao submarino nuclear. Apesar do nome, este artefato não carrega ogivas, mas é alimentado por energia nuclear, o que lhe confere maior potência e garante maior tempo de submersão ininterrupta. Prova do interesse do Brasil nesse setor é o acordo assinado com a França em dezembro do ano passado, que prevê parceria entre os dois países na construção de um submarino nuclear brasileiro.

As pesquisas para desenvolvimento dessa tecnologia no Brasil são hoje fiscalizadas nacionalmente pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), órgão que exerce o monopólío da mineração de elementos radioativos, da produção e do comércio de materiais nucleares no país.

Além da CNEN, a fiscalização dos programas nucleares brasileiros é feita por uma agência bilateral argentino-brasileira, que realiza vistorias nos dois países.

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