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No Brasil, desinformação envolvendo celebridades e covid tem tom político

A atriz Camila Pitanga foi alvo de fake news sobre covid-19 - Reprodução / Internet
A atriz Camila Pitanga foi alvo de fake news sobre covid-19 Imagem: Reprodução / Internet

Por Nathália Afonso

01/10/2020 04h01

Poucas coisas atraem mais a atenção do público do que a vida das celebridades. Sendo assim, não é surpresa que, durante a pandemia de covid-19, conteúdos desinformativos envolvendo famosos e a doença circularam em todo o mundo. Ao todo, 81 checagens foram feitas, segundo as base de dados dos projetos CoronaVirusFacts Alliance, da IFCN, e do CoronaVerificado. No Brasil, essas peças de desinformação ganharam um tom político, e foram usadas para atacar artistas que se opõem ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Um boato envolvendo famosos brasileiros dizia que a atriz Camila Pitanga, que contraiu malária enquanto estava em isolamento na Barra do Una, na verdade estaria com covid-19 - e usou a doença como subterfúgio para tomar cloroquina. Esse medicamento é usado no tratamento da malária, mas vem sendo defendido por Bolsonaro como um tratamento para o novo coronavírus, sem que haja comprovação científica de sua eficácia. A informação, claro, é falsa: a assessoria de imprensa da atriz disponibilizou ao público os resultados dos exames para as duas doenças.

Não foi a primeira vez que falsas informações sobre celebridades foram usadas para fazer propaganda da cloroquina aqui no Brasil. Em abril, circulou a informação de que a atriz Rita Wilson, que contraiu covid-19 na Austrália, declarou publicamente ter se curado por causa da cloroquina. Em entrevista à rede de televisão norte-americana CBS, ela disse o contrário: que tomou o remédio, mas que acredita que não teve qualquer efeito. Ela disse, ainda, ter sofrido efeitos colaterais "extremos".

Outro caso de boatos sobre celebridades com fundo político envolve a atriz Fernanda Torres. Ela teria dito que torcia para a disseminação do novo coronavírus e que queria que o presidente Bolsonaro morresse. Checadores brasileiros mostraram que esse post distorcia um artigo publicado pela atriz. No texto, a atriz critica o presidente por ter participado de manifestações pró-governo durante a pandemia, incentivando aglomerações. Contudo, em nenhum momento ela fala que Bolsonaro deveria morrer ou que torcia pela disseminação do vírus.

A cantora Preta Gil também foi alvo de desinformação, ainda no início da pandemia. Ela foi uma das primeiras pessoas a contrair a doença no Brasil, ainda no início de março, provavelmente quando cantou no casamento da influencer Marcella Minelli - um dos primeiros focos de covid-19 no Brasil. Nas redes, circulou a informação de que, enquanto estava infectada, ela teria "arrastado" milhares de foliões para seu bloco de carnaval. Contudo, ela foi infectada depois, e não antes, da performance mencionada. Esse conteúdo também circulou em Portugal.

Falsas vítimas

No resto do mundo, várias pessoas famosas foram falsamente diagnosticadas com covid-19. Uma conta pirata simulando a BBC no Twitter, por exemplo, "noticiou" que o ator britânico Daniel Radcliffe, famoso por interpretar Harry Potter nos cinemas, contraiu a doença. Isso também aconteceu com a cantora indiana Kanika Kapoor, a atriz filipina Angel Locsin e o empresário e político norte-americano Joe Exotic, personagem principal da série documental A Máfia dos Tigres.

A família real britânica foi assunto de 12 checagens realizadas por jornalistas ao redor do mundo. O boato mais disseminado era que a rainha Elizabeth tinha sido diagnosticada com covid-19. Este conteúdo falso foi compartilhado nos Estados Unidos, Nigéria, França, Irlanda e Portugal e causou grande preocupação, já que a rainha tem 94 anos e faz parte do grupo de risco. Contudo, o Palácio de Buckingham negou essa informação.

Por outro lado, algumas celebridades também foram responsáveis impulsionar um conteúdo falso. Um estudo divulgado pela Universidade de Queensland, na Austrália, apontou que famosos têm muitos seguidores fiéis, que tendem a confiar nas informações postadas pelos seus ídolos. Essa confiança cega é um ingrediente que pode auxiliar conteúdos falsos a serem compartilhados em grande escala.

Em julho, por exemplo, a cantora Madonna divulgou um vídeo de uma médica americana utilizando informações falsas para defender o uso da cloroquina como forma de tratamento da covid-19. O Instagram classificou o conteúdo como falso e a artista apagou a gravação. Já o ator Woody Harrelson, que já fez filmes como Truque de Mestre e O Povo contra Larry Flint, compartilhou a teoria da conspiração de que o 5G conseguiria disseminar o novo coronavírus.

Esta coluna foi escrita pela Agência Lupa a partir das bases de dados públicas mantidas pelos projetos CoronaVerificado e LatamChequea Coronavírus, que têm apoio do Google News Initiative, e pela CoronaVirusFacts Alliance, que reúne 88 organizações de checagem em todo mundo. A produção das análises tem o apoio do Instituto Serrapilheira e da Unesco. Veja outras verificações e conheça os parceiros em coronaverificado.news

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.