Presidente exige demissão do primeiro-ministro no Timor

Lisboa, 21 Jun (Lusa) - O presidente do Timor Leste, Xanana Gusmão, exigiu a demissão do primeiro-ministro Mari Alkatiri, por considerar que não merece mais sua confiança, em uma carta enviada ontem ao chefe de Governo a que a agência Lusa teve acesso. Gusmão dava prazo até as 17h locais (5h de ontem em Brasília) para que o premiê tomasse a decisão.

Na carta, o presidente refere-se a um programa da série "Four Corners", transmitido pela televisão australiana ABC, explicando a Alkatiri que o documentário faz "graves denúncias sobre seu envolvimento na distribuição de armas a civis". "Só me resta dar-lhe oportunidade para decidir: ou resigna ou, depois de ouvido o Conselho de Estado, o demitirei, porque deixou de merecer minha confiança enquanto presidente da República", escreve.

O documentário de 45 minutos investigou um grupo armado que teria sido criado pelo ex-ministro do Interior Rogério Lobato, sob instruções de Mari Alkatiri, para que a eliminação de opositores do governo. A ABC teve acesso a documentos confidenciais, incluindo listas de armas supostamente entregues ao grupo, liderado pelo veterano da luta contra a ocupação indonésia Vicente da Conceição "Railos", e uma carta do comandante da Polícia Nacional do Timor Leste (PNTL), Paulo Martins, a Alkatiri alertando para a distribuição de armas.

O comandante Railos alega ter recebido armas e fardas de uma das unidades de elite da Polícia Nacional e a missão de eliminar adversários políticos do primeiro-ministro. Segundo ele, as ordens teriam sido dadas ao grupo por Lobato em três ocasiões. O caso está sendo investigado pelo Ministério Público timorense, que anunciou o início de averiguações sobre o envolvimento de Lobato.

A questão foi analisada hoje na reunião do Conselho de Estado, órgão de consulta do presidente da República. Um dos conselheiros, que pediu o anonimato, disse à Lusa que alguns dos participantes da reunião se pronunciaram a favor da demissão de Alkatiri. Segundo a fonte, Gusmão concluiu na reunião que não poderia deixar de apresentar à população uma solução à crise.

A crise no Timor Leste começou em abril, quando 600 militares exonerados das Forças Armadas pelo governo de Alkatiri realizaram violentos protestos, acusando o comando de discriminação étnica. Em maio, o conflito se agravou, envolvendo policiais e grupos de civis armados e deixando, segundo as Nações Unidas, 37 mortos e 133 mil deslocados internos. Forças militares e policiais da Austrália, Portugal, Nova Zelândia e Malásia atuam na capital Díli a pedido das autoridades timorenses para estabilizar a situação. Em meio à crise, foram demitidos, a pedido de Gusmão, os então ministros do Interior, Rogério Lobato, e da Defesa, Roque Rodrigues.

Reuniões

Mari Alkatiri tem repetidamente negado as acusações de "Railos", e esta semana, em entrevista à Lusa e à emissora portuguesa RTP, reafirmou sua posição: "Eu nunca dei ordens para matar ninguém, pelo contrário. Nunca dei armas a ninguém. Tenho a consciência tranqüila", afirmou na entrevista.

Após o Conselho de Estado, o primeiro-ministro timorense reuniu-se hoje em Díli com o núcleo do governo e o comando de seu partido, a FRETILIN. Segundo uma fonte governamental, o objetivo foi tratar sobre sua possível demissão.

A mesma fonte indicou que Alkatiri convocou uma reunião extraordinária do Conselho de Ministros para quinta-feira, às 9h locais (21h de hoje em Brasília), para ouvir a opinião deles sobre o assunto. Depois, deve se reunir com o presidente do Parlamento Nacional e da FRETILIN , Francisco Guterres "Lu-Olo", e com Xanana Gusmão no Palácio das Cinzas, sede da Presidência timorense, para comunicar a posição do governo e do partido sobre a exigência de Gusmão.

Uma fonte da FRETILIN afirmou à Lusa que o partido recusará integrar qualquer governo de iniciativa presidencial caso Alkatiri deixe o cargo - e, nesta hipótese, todos os membros do partido também se demitiriam.

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