Crise que derrubou premiê do Timor teve início há 1 ano

Lisboa, 24 Abr (Lusa) - Os incidentes que deram origem à persistente crise político-militar no Timor Leste começaram exatamente há um ano, quando um grupo de militares se insurgiu em protesto contra supostas discriminações dentro das Forças Armadas.

Em 24 de abril de 2006, cerca de duas mil pessoas, em sua maioria militares, iniciaram cinco dias de protestos, após a entrega de uma petição assinada por 591 oficiais ao presidente timorense, Xanana Gusmão. No documento, eram denunciados atos de discriminação étnica no meio militar.

A crise havia ganhado pela primeira vez as ruas em 8 de fevereiro do mesmo ano, quando centenas de militares se concentraram, desarmados, junto ao edifício da Presidência da República, para que Gusmão, na condição de comandante supremo das Forças Armadas, investigasse os "atos de injustiça" dos quais alegavam estar sendo vítimas em suas unidades.

O protesto dos soldados denunciava práticas discriminatórias por serem majoritariamente "loromonu", grupo étnico proveniente dos dez distritos mais a oeste do Timor - Aileu, Ainaro, Bobonaro, Covalima, Díli, Ermera, Liquiçá, Manatuto, Manufahi e Oecussi. Os outros três distritos - Lautém, Viqueque e Baucau - são chamados de "lorosae".

Como o abandono das unidades persistiu, o brigadeiro-general Taur Matan Ruak, apoiado por uma nota elaborada pela Presidência do Conselho de Ministros, considerou que os militares tinham se colocado à margem da instituição, sendo considerados civis a partir de 1º de março.

Na petição entregue na capital Díli, os manifestantes rejeitaram a decisão do brigadeiro-general Ruak, que os considerou auto-excluídos da instituição militar, e também a comissão criada pelo Estado-Maior para investigar as reivindicações dos peticionários - o órgão era acusado de não ser imparcial.

Contornos políticos e mortes

A crise, entretanto, ganhou contornos políticos, e as negociações envolveram o então primeiro-ministro, Mari Alkatiri, e o ministro das Relações Exteriores na ocasião, José Ramos Horta.

Isso não impediu que fossem registrados diversos incidentes, que deixaram mais de duas dezenas de mortos e quase 100 feridos, segundo números oficiais.

A crise ganhou fôlego quando o major Alfredo Reinado, ex-chefe da Polícia Militar do Timor, acusou Alkatiri de ter ordenado às Forças Armadas que substituíssem a polícia nos confrontos em Díli, sem informar ao presidente da República.

Reinado foi detido, e um novo agravamento da crise leva, em 26 de junho, Alkatiri a pedir demissão do cargo de primeiro-ministro, sendo substituído por José Ramos Horta, cujo governo, o 2º Constitucional do país, tomou posse em 10 de julho.

Em 30 de agosto, Reinado, junto com outros 57 reclusos, foge da prisão de Díli, cinco dias depois de o Conselho de Segurança da ONU ter aprovado a criação da Missão Integrada das Nações Unidas para o Timor Leste (Unmit, na sigla em inglês), composta por 1.600 policiais.

Eleições

Tem início então uma nova crise político-militar, com divisões em todos os níveis, em um período em que começavam a ser projetadas as eleições presidenciais, que acabariam sendo realizadas em 9 de abril do ano atual, com várias perseguições ao major Reinado, que segue foragido.

Apesar das negociações em andamento para a libertação de Reinado, o segundo turno das presidenciais está marcado para 9 de maio. As legislativas foram agendadas para 30 de junho próximo.

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