Diálogo UE-África não terá 'doador' e 'pedinte', diz acadêmico

Maputo, 5 nov (Lusa) - O diretor do Instituto português de Estudos Estratégicos e Internacionais, Fernando Cardoso, defendeu nesta terça-feira que a cúpula Europa-África trará "ganhos" para o continente africano, mas previu a concentração européia na busca de soluções em assuntos estratégicos, em especial de segurança internacional.

As declarações foram feitas em Maputo, durante uma palestra de reflexão sobre os benefícios da cúpula que reunirá líderes europeus e africanos em 8 e 9 de dezembro, em Lisboa.

Cardoso advertiu alguns segmentos sociais, no entanto, para não esperarem "resultados de um conjunto de projetos importantes para o continente africano".

"Se olharmos para a cúpula nesta expectativa, as nossas expectativas vão ser frustradas. A razão da realização da cúpula e aquilo que devemos esperar [dessa reunião] tem a ver com o fato de, pela primeira vez, existir um diálogo entre os líderes africanos e europeus sobre os problemas que afetam ambas as regiões e são assuntos de natureza internacional", disse.

O encontro de Lisboa deve "procurar encontrar nos problemas comuns questões que afetem ambos os lados", afirmou no debate em que estiveram presentes acadêmicos, políticos, diplomatas, jornalistas e personalidades da sociedade civil.

O docente do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais de Portugal destacou o fato de a reunião entre os continentes ser a primeira do gênero em que o diálogo será feito numa parceria entre Estados, sem respeitar hierarquias de "doadores" e "pedintes".

"Esta será a primeira vez em que este tipo de diálogo será feito, ao contrário das vezes anteriores, em que o diálogo [entre a Europa e África] tinha a ver com como é que a Europa pode ou não ajudar o desenvolvimento dos países africanos e quanto dinheiro tem disponível para dar e como é que vai utilizar", afirmou.

"Este tipo de diálogo não vai acontecer na cúpula Europa-África e é bom que não aconteça, porque muito provavelmente poderíamos chegar à conclusão de que os resultados finais de ajuda ao desenvolvimento não resolvem os problemas de desenvolvimento", disse.

Cardoso negou que a reunião de Lisboa trará benefícios apenas para a África, assinalando que conseguir resolver problemas europeus "será um sinal do sucesso da cúpula".

"Se esta cúpula servir para resolver problemas europeus isso será um sinal do sucesso da reunião porque, até agora, o pensamento é sempre ao contrário. [...] Como é que as reuniões podem resolver o problema dos países mais fracos?", questionou.

"Creio que está na altura de os países mais fracos e mais fortes encontrarem uma forma conjunta de resolver os problemas que afetam a ambos e não olhar para as questões como unilaterais", sublinhou.

A cúpula de Lisboa irá abordar oito temas, incluindo as alterações climáticas e segurança.

"Creio que a contribuição européia para arquitetura de paz e segurança na África é algo de muito importante no sentido de ultrapassar as rivalidades entre alguns países europeus, que procurarão tornar essa ajuda numa ajuda bilateral" para o continente africano, afirma Fernando Cardoso.

Por outro lado, apontou, "do ponto de vista europeu, poderá perfeitamente no futuro haver deslocamentos conjuntos de forças européias e africanas para cenários onde sejam necessários segurar a paz ou impô-la".

Cardoso destacou, contudo, a questão da eventual perda de protagonismo do Ocidente na África frente os "novos atores no sistema internacional, que têm uma presença e um impacto significativo no continente africano", como a China.

A intervenção destes atores tem alterado o paradigma de cooperação, minando também as vantagens tiradas pelas instituições internacionais, em especial do Banco Mundial, cujas políticas são consideradas perniciosas para as economias dos estados pobres, considerou.

Devido à política chinesa, "o que acontece é uma margem de espaço de manobra dos estados africanos relativamente à recepção de empréstimos, que leva a uma perda relativa da influência quase absoluta que o Banco Mundial tinha, por exemplo, há 10 anos", apontou.

Mas, esta decisão dos estados africanos pode também ser perniciosa para alguns países em vias de desenvolvimento, pois, acredita, "as coisas são benéficas ou não dependendo da forma como se usam".

O fenômeno China "é uma tendência inevitável, uma dinâmica inevitável do mundo em que vivemos. A China existe, está em crescimento industrial fortíssimo, tem capacidade financeira suficiente para realizar empréstimos internacionais" acrescentou.

Entretanto, "cabe aos Estados africanos resolverem os seus problemas face à política chinesa" e "os que estão no poder nestes Estados africanos cabe-lhes igualmente pensar sobre as conseqüências a médio e a longo prazo do endividamento", concluiu.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos