Angola vive uma 'ditadura', acusa acadêmico da oposição

Lisboa, 10 jan (Lusa) - Mais de três décadas depois da independência, Angola ainda não conhece o sabor da democracia e os angolanos só poderão sair da "ditadura" do MPLA (partido da situação) com o interesse dos países ocidentais, defendeu o acadêmico Adriano Parreira.

Em entrevista à Lusa, o professor da Universidade Agostinho Neto, em Luanda, que a partir da próxima semana será o primeiro africano membro da Academia Portuguesa de História, identificou a "institucionalização da democracia" como principal desafio dos próximos anos em Angola. As próximas eleições legislativas do país estão programadas para 5 e 6 de setembro de 2008.

"Está por fazer a democracia em Angola, o que existe é uma ditadura, sob a batuta de José Eduardo dos Santos, e o país está ansiosamente à espera, já há muitos anos, que a democracia seja criada", afirmou o acadêmico, em Lisboa, onde será empossado na academia lusa em 16 de janeiro.

Parreira, que preside o pequeno Partido Angolano Independente (PAI), se mostrou descrente em relação ao processo eleitoral em curso, que afirma só poder funcionar com um papel mais intervencionista e exigente dos países observadores - em particular das democracias que têm interesses em Angola, como as da União Européia, Estados Unidos, Brasil e Índia.

"Não é uma questão de exercer pressão, [estas democracias] têm apenas de ser consoantes com as suas constituições, olhando para as eleições em Angola com a mesma exigência com que olhariam para as dos seus próprios países. Que se cumpram as suas próprias regras democráticas", afirmou à Lusa.

Além de professor e pesquisador na Universidade Agostinho Neto, onde leciona o mestrado em História de Angola e é docente no Departamento de Ciências Sociais, Adriano Parreira desempenhou também cargos diplomáticos, como os de embaixador itinerante e de embaixador extraordinário de Angola junto às Nações Unidas, em Genebra, e a organizações internacionais sediadas na Suíça.

Para Parreira, o governo está criando obstáculos à realização de eleições legislativas livres no país e "há uma intenção de falsear a realidade".

"As eleições foram decididas arbitrariamente na cabeça do senhor José Eduardo dos Santos. Tudo pode acontecer, ele não é credível, os angolanos sabem que o que ele diz não se escreve", afirmou.

"Escolheram a época das chuvas para a votação e se verifica que a maioria da população não está recenseada", afirmou.

Em particular, Parreira aponta o fato de o sistema informático eleitoral estar sob controle governamental, além de o recenseamento ter sido feito de forma deficiente e - acusa - de forma a excluir populações cuja tendência política é adversa ao partido no poder.

"Existem situações caricatas, a 90 ou 100 quilômetros de Luanda, por exemplo, no Kwanza Norte, há populações inteiras que não estão recenseadas e não vão poder votar", afirma Adriano Parreira.

"O governo não tem tido uma atitude honesta e não tem contribuído para que o processo seja transparente e democrático, através da realização de eleições em que toda Angola possa participar", acusou o acadêmico angolano.

Além de "arbitrariedade" no recenseamento e na marcação de eleições sem envolver os demais partidos políticos e observadores, "estão sendo criados obstáculos" à livre expressão, considera.

Exemplo disto, afirma, é a detenção do diretor do Semanário Angolense, Graça Campos, e do representante da Emissora Católica de Angola no Namibe, Armando Chicoca.

"O governo não está com vontade de promover a participação ativa dos partidos da oposição", afirma o acadêmico e pesquisador.

O nome de Adriano Parreira foi proposto para a Academia Portuguesa de História pela presidente da instituição, Manuela Mendonça, e votado unanimemente pelos demais membros.

Até agora, a Academia tinha um membro africano, o cardeal angolano Alexandre Nascimento, apenas a título honorário.

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