Zimbabuanos deixam país pela fronteira com Moçambique

Por André Catueira, da Agência Lusa

Moçambique, 30 jun (Lusa) - Intimidação, milícias na rua coagindo ao voto, aparato militar: assim é descrito o segundo turno das eleições no Zimbábue pelos zimbabuanos que entram em Moçambique pela fronteira de Machipanda.

De acordo com os relatos ouvidos pela Agência Lusa na principal fronteira que separa o Zimbábue de Moçambique, muitos zimbabuanos deixaram seu país movidos pelo medo causado pelas brutalidades supostamente protagonizadas pelos partidários da Zanu-PF, partido de Robert Mugabe, que foi reeleito presidente no último dia 27.

Segundo zimbabuanos que cruzaram a fronteira, nos locais onde Morgan Tsvangirai, candidato do partido opositor MDC, venceu no primeiro turno, como nos subúrbios de Harare, militares obrigaram as pessoas a comparecer às urnas na última sexta-feira.

"A patrulha era forte e as milícias deixavam as coisas bem claras: 'quem não for votar pode ter problemas'", indicou Kuda Khwaiche, desempregado de 34 anos.

"As torturas e intimidações contra os prováveis apoiadores do MDC acentuaram as dúvidas dos zimbabuanos sobre se deveriam ou não votar. Para evitar uma abstenção maciça dos eleitores, a milícia optou por obrigar as pessoas a irem às urnas", explicou Khwaiche, que questionou, em tom de desespero, o destino que seu país terá nos próximos anos.

Já Jackelin Stiven, 29 anos, residente em Chitunguisa, arredores de Harare, diz que as ameaças das milícias foram uma constante, mas não impediram a grande abstenção.

"Ao contrário da votação de março, em que fiquei horas e horas à espera da minha vez, na sexta-feira não houve fila longa na minha zona eleitoral", disse Jackelin Stiven, que se dedica à venda de produtos alimentares adquiridos em Moçambique.

Vários dos zimbabuanos que cruzaram a fronteira de Machipanda admitem que vão permanecer em Moçambique, pensando em pedir autorização de residência até que a situação se acalme no Zimbábue.

Com uma agilidade incomum - se levado em consideração que o resultado do primeiro turno demorou semanas para ser conhecido -, a Comissão Eleitoral do Zimbábue declarou Robert Mugabe vencedor do segundo turno das presidenciais com 90,2% dos votos válidos.

Mugabe era candidato único, já que Morgan Tsvangirai, que havia obtido maioria no primeiro turno, desistiu da corrida alegando falta de condições democráticas e denunciando os atos de violência contra seus simpatizantes.

Durante o processo eleitoral, pelo menos 70 apoiadores do MDC morreram e cerca de 200 mil pessoas foram forçadas a abandonar suas casas para escapar dos ataques da milícia que apóia o regime. Também se estima que 20 mil habitações tenham sido queimadas e 10 mil pessoas feridas.

Robert Mugabe, presidente do Zimbábue há quase 30 anos, foi imediatamente empossado para mais um mandato de cinco anos.

Trich - que pediu a omissão de seu sobrenome por temer represálias - relatou à Lusa que, no caminho da urna, a população zimbabuana era interpelada pela polícia a propósito do slogan oficial da campanha da Zanu-PF.

"Os policiais já não pediam documentação na rua nem nos ônibus que paravam, pois identificavam suas vítimas pelo desconhecimento do slogan [100% Empowerment, Total Independence]", relatou.

A operação, conhecida como "slogan de sangue", ocorria com maior freqüência nos subúrbios e nos distritos onde a oposição levou vantagem no primeiro turno, adiantou ainda Trich.

Apesar da forma como ocorreu a campanha e a votação, Trich espera que a ida às urnas possa significar que os problemas do Zimbábue acabarão.

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