'Comida religiosa' estagna em Portugal e contraria tendência

Por Simon Kamm, da Agência Lusa

Lisboa, 19 jul (Lusa) - O 'negócio da comida religiosa' em Portugal está estagnado, contrariando o forte crescimento que o setor alimentar 'halal' e 'kosher' tem tido a nível internacional, uma situação explicada pela fraca expressão das comunidades muçulmana e judaica no país.

A aposta em produtos 'halal' e 'kosher', ou seja, alimentos e outros produtos considerados apropriados para o consumo pela fé muçulmana e judaica, respectivamente, é um novo nicho de mercado que tem vindo a crescer em todo o mundo. Segundo dados internacionais, só o setor dos produtos 'halal' já "abrange 1,8 bilhões consumidores muçulmanos em todo o mundo".

Na Espanha, país onde vivem 1,5 milhões de muçulmanos e cerca de 40.000 judeus, várias empresas já identificaram o 'negócio com as religiões' e têm vindo a apostar na produção e distribuição de produtos adaptados à estas confissões, um público fiel e disposto a pagar um valor extra pelo que consideram um valor agregado.

Portugal não é exceção. Há empresas que apostam no setor, mas o mercado 'halal' (termo árabe do Alcorão que significa "lícito" ou "permitido") está "atualmente estagnado" porque a comunidade muçulmana não "tem grande expressão no país [cerca de 40.000] e não está a aumentar", explicou à Agência Lusa, Ismail Karolia, gerente de uma empresa baseada em Odivelas e no Seixal que há seis anos vende e distribui produtos 'halal'.

"Além dos talhos tradicionais muçulmanos e alguns restaurantes, só há meia dúzia de empresas que operam neste setor. Como a procura continua a ser pouca, a aposta neste mercado também não tem sido muita", explicou Karolia.

Por sua vez, Haider Pestamgy, engenheiro de qualidade alimentar e investidor no conceito 'halal', afirmou que, tendo em conta o número de muçulmanos no país, "já se pode falar de um mercado significativo a nível da procura", considerando que este setor "pode ainda ser expandido".

Tanto Karolia como Pestamgy salientaram que o acesso aos produtos 'permitidos' "ainda é difícil para muitos consumidores islâmicos em Portugal", uma vez que são "exclusivamente vendidos no pequeno comércio e dentro da comunidade".

"A oferta existente ainda não é totalmente conhecida. O consumidor islâmico continua muito habituado ao conceito do talho tradicional muçulmano, sobretudo na compra de carne para cozinhar em casa", disse à Lusa Haider Pestamgy, frisando que "fora de casa, ou seja, ao nível da restauração e das possibilidades de compra destes produtos, a oferta não é muita".

Nesse sentido, explicou, os objetivos em Portugal passam atualmente por "aumentar a oferta de restauração", introduzir uma "certificação de produtos halal" - seguindo o exemplo espanhol e francês - e fazer com que esses "produtos com selo de garantia passem a ser vendidos em grandes superfícies", tornando-os "mais acessíveis e baratos".

"A comunidade islâmica está a organizar-se nesse sentido, essa é a grande aposta. Mas antes é preciso encontrar o equilíbrio entre a produção em larga escala e o respeito pelo ritual islâmico", explicou.

A carne vendida nos talhos muçulmanos, que são pelo menos cinco nos arredores de Lisboa, é "ligeiramente mais cara", lembraram, uma vez que o abate da carne segundo regras estipuladas pela lei islâmica (Sharía) - que a torna apropriada ao consumo - é "feito manualmente e é mais moroso do que o industrial".

"Um frango halal é cerca 20% mais caro do que um frango normal. Nas outras carnes [menos a carne de porco que sempre é considerada impura] a diferença varia entre 30 e 40%", explicou Ismail Karolia, lembrando que os muçulmanos "pagam a diferença porque é uma questão de crença, mas também porque é mais saudável".

Situação algo diferente é a dos produtos 'kosher', que "já tem um canto específico numa grande superfície a operar no país", onde os judeus religiosos "podem comprar carne, queijos, e vinhos", e com a qual todos os anos existe "um acordo para a realização da encomenda prévia e personalizada de produtos", no âmbito das celebrações da Páscoa Judaica, segundo disse à Lusa, a vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, Esther Mucznik.

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