Veterinária lusa é responsável por 17 mil bovinos de Açores

Madalena do Pico, 24 jan (Lusa) - Os cerca de 17 mil bovinos existentes na Ilha do Pico, em Açores, recebem assitência de uma única veterinária que, com apenas 27 anos, deixou de ter vida pessoal, mas confessa-se "feliz e realizada".

É sábado, são 7h00 (5h00 em Brasília) e o celular de Catarina Manito já tocou cinco vezes. As solicitações feitas de cinco freguesias da ilha obrigam a veterinária a sair de casa sem tomar café da manhã.

Uma das chamadas, feita pelo senhor Manuel das Bandeiras, repete-se a cada quinze minutos. Uma vaca com febre alta debilitada fisicamente é a razão pela qual Catarina acelera na estrada.

Nessa manhã, a veterinária percorreu cerca de 200 quilômetros em apenas quatro horas, trato cinco vacas, dois vitelos e um porco - espécie que também trata -, mas afirma já ter feito mais de 400 quilômetros num só dia.

Não tem hora para comer e nunca adormece com o celular em silêncio. Trabalha de dia e de noite, "faça chuva ou faça sol".

"Há dias que passo horas ao volante, o que me cansa mais do que trabalhar diretamente com os animais", lamentou a jovem, que vive em Madalena, a 52 quilômetros da outra ponta da ilha, Piedade.

É de se destacar os percursos do Pico, estradas bastante irregulares com um limite de velocidade de 50 quilômetros por hora e acessos sem asfalto que dificultam a vida de Manito quando é solicitada para uma urgência.

Bovinos

Das seis veterinárias existentes na ilha, apenas duas são especializadas em bovinos, cerca de 17 mil numa ilha que tem apenas 15 mil habitantes.

Catarina trabalha para a Associação de Agricultores do Pico e há cerca de seis meses está sozinha respondendo a todas as solicitações feitas diariamente. Já que sua colega está grávida, proibida de entrar em contato com animais eventualmente traiçoeiros.

Natural de Santarém, Catarina Manito foi para o Pico com 6 meses de idade, considerando-se, assim, uma "verdadeira picarota".

Com o curso de Medicina Veterinária concluído em Évora, região central de Portugal, a jovem regressou à ilha após dois anos de estágio, realizado em várias regiões do país.

A oportunidade "única" de estagiar durante três meses nos Estados Unidos foi a "melhor experiência" da vida da veterinária, que não esquece a família "humilde" que a acolheu no estado da Pensilvânia, oeste dos EUA, apesar de ter sido "muito difícil inicialmente".

Realização

A veterinária confessa sentir-se "feliz e realizada" com o trabalho que tem feito no Pico, apesar de ser "muito cansativo e desgastante fisicamente".

"Já cheguei a receber 30 a 40 chamadas por dia e dar a volta à ilha inúmeras vezes", disse, lamentando o fato de não ter tempo para descansar e de sentir "falta de tédio".

"Só tenho folga quando o celular não toca, o que é muito raro acontecer", declarou, relembrando as duas semanas que teve de férias em agosto na Tunísia, onde optou por desliga-lo por receber "constantemente" chamadas do Pico.

Prioridade

Entre consultas de rotina, vacinação, observações e muitas outras solicitações, são as cesarianas problemáticas a grande prioridade da jovem veterinária, que ajuda cerca de 15 a 20 vacas por mês.

"Aflige-me saber que por vezes não posso assistir todos os animais quando as pessoas me solicitam de uma ponta da ilha e eu estou na outra ponta", lamentou a jovem, confessando que vive em "constante preocupação".

Apesar de arriscar a vida "muitas vezes", quando se depara com animais "mais agressivos", e das "habituais nódoas negras" a que está sujeita, Manito deseja continuar a viver e a trabalhar no Pico, pois foi a ilha que a viu crescer e é nela que se sente bem.

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