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Obra em SP localiza seis ossadas humanas; denúncia cita descarte irregular

Obra em que funcionários teriam encontrado ao menos seis ossadas humanas em SP - Reprodução
Obra em que funcionários teriam encontrado ao menos seis ossadas humanas em SP Imagem: Reprodução

por Arthur Stabile

13/12/2019 16h08Atualizada em 18/12/2019 12h41

Resumo da notícia

  • Denúncia anônima revela ossadas em obras na Vila Mariana, em SP
  • Responsável pela obra afirma ter confundido com restos de animais
  • Na denúncia consta que diretoria teria ordenado descarte dos restos
  • Local fica a 150 m do antigo Doi-Codi, centro de repressão na ditadura

Uma denúncia anônima afirma que ao menos seis ossadas humanas foram encontradas em uma construção na rua Abílio Soares, número 1.149, na Vila Mariana, zona sul da cidade de São Paulo.

A Polícia Civil de São Paulo recebeu a denúncia de que funcionários de uma obra de prédios residenciais, feita pela construtora UNIQ, escavavam o local quando encontraram os restos.

O local fica a 150 metros da sede do antigo Doi-Codi (Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna), local em que integrantes da ditadura militar torturaram presos políticos.

Hoje o 36º DP (Paraíso) funciona neste prédio.

Denúncia anônima cita ordem de descartar ossadas

Duas outras empresas, que prestaram serviço para a UNIQ nesta obra, são citadas no inquérito policial que foi aberto em 7 de novembro a partir da denúncia: Top Solo Fundações e Líder.

O relato é de que os restos humanos estavam cobertos por um pó branco que seria similar à cal, usado para amenizar o cheiro, e apresentavam "orifícios provocados por disparos de arma de fogo". Funcionários da obra tiraram fotos para registrar o ocorrido.

Ainda segundo a denúncia, as imagens foram mostradas ao responsável pela obra, que teria então feito uma reunião com "diretores e engenheiros" da UNIQ. A decisão foi que a obra seria tocada "por estarem com prazos encurtados e por se tratar de final de ano".

Ainda, segundo a denúncia anônima, a ordem superior teria sido desovar os ossos em uma área em Carapicuíba, na Grande São Paulo.

O documento afirma que um funcionário confirmou a ordem de juntar as partes humanas a terra e entulho da obra e descartá-los na Lagoa de Carapicuíba, na avenida Consolação, 505, do município.

A apuração da denúncia começou a ser feita pela Delegacia Seccional de Diadema em 30 de outubro deste ano.

Mestre de obras pensou se tratar de animais

Segundo o relatório de investigação obtido pela Ponte, os investigadores estiveram no dia 1º de novembro no local e ouviram o mestre de obras confidenciar que, ao notar as ossadas, pensou que eram de animais e decidiu por conta própria não avisar os superiores ou autoridades.
Além disso, assumiu a responsabilidade de autorizar os funcionários a seguirem com a obra.

A investigação apura se o local era um cemitério clandestino usado para desova de corpos ou um cemitério antigo, "datado do tempo da escravidão, onde pobres, escravos e negros forros eram sepultados", segundo o relatório da polícia.

Empresa afirma ter informado autoridades

Em nota, enviada hoje, a UNIQ informa que "no dia quatro de dezembro, durante o trabalho de escavação manual na obra, foi encontrado um fragmento de osso. O local foi isolado com tela de proteção. A construtora UNIQ imediatamente informou as autoridades competentes e está à disposição".

A Ponte também entrou em contato por telefone com a Top Solo e foi informada que o proprietário não estava. Formalizado um pedido de nota por e-mail, não houve retorno até o momento. Por causa da ausência de mais dados da Líder, não foi possível localizar a empresa.

A reportagem também questionou a SSP (Secretaria da Segurança Pública) de São Paulo, sobre a investigação. Em nota, a pasta informa que o caso é investigado por meio de inquérito policial instaurado pelo 36º DP.

"Os materiais foram recolhidos e encaminhados para exames no Núcleo de Antropologia do IML. Diligências estão em curso para identificar elementos que auxiliem no esclarecimento dos fatos", diz nota.

Centro da repressão na ditadura

O Doi-Codi era usado pela ditadura militar para prender e torturar pessoas opositoras ao regime ditatorial instalado no Brasil entre 1964 e 1985.

Ao menos dois jornalistas foram mortos no Doi-Codi: Vladimir Herzog e Luiz Eduardo Merlino. Ambos foram torturados e morreram, enquanto o regime alegou que um se enforcou e o outro teria sido atropelado.

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