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13/09/2002 - 12h00

Menor uso da máquina reduz bônus de candidato governista

Por Márcia Detoni

SÃO PAULO (Reuters) - Ser candidato do governo nestas eleições presidenciais não tem tantas vantagens quanto no passado. Já foi o tempo, afirmam especialistas, que a administração federal podia ser amplamente acionada para favorecer uma candidatura.

"A máquina está enfraquecida. (José) Serra não vem sendo muito beneficiado", avalia o consultor de marketing político Tom Eisenlohr, que coordenou, no passado, as campanhas de Tancredo Neves e Mário Covas.

Em mais de um oportunidade, o presidenciável Luiz Inácio Lula da Silva, da coligação liderada pelo PT, afirmou que o candidato governista José Serra "só quer o bônus da máquina fazendo a campanha para ele, mas não quer o ônus".

Para Eisenlohr, até a década de 90, a máquina federal era usada ativamente para garantir a vitória dos governistas.

Diretores de estatais usavam sua influência sobre o setor privado para obter dinheiro de campanha; créditos eram facilitados; veículos e recursos públicos eram utilizados em comícios, e fartos gastos do Estado em publicidade garantiam o apoio da mídia.

Hoje, segundo os analistas, a situação é outra.

"A privatização não só reduziu o poder econômico do Estado, mas também o poder político", argumenta Walter Góes, presidente do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos (Ibep), com sede em Brasília.

O cientista político acrescenta que as estatais ainda existentes, como o Banco do Brasil e a Petrobras, estão bastante profissionalizadas. Além disso, na avaliação dele, um amadurecimento da mídia e a maior vigilância política por parte da sociedade contribuíram bastante para limitar o poder eleitoral do aparato administrativo.

O mesmo não se pode dizer, no entanto, em relação ao uso da máquina municipal e estadual. Uma pesquisa do Ibope realizada nas eleições municipais de 2000 para a organização não-governamental Transparência Brasil mostra que 9 por cento dos eleitores receberam oferta de serviços público facilitadas para votar em determinado candidato.

O cientista político Bruno Espek, conselheiro da organização, considera esse índice bastante alto, mas não acredita que o esquema de troca de votos por serviços públicos seja tão forte nas eleições presidenciais.

"A máquina tem menos peso nas eleições majoritárias", comenta Espek. Segundo ele, quando a eleição tem uma importância maior, como a de presidente, é mais difícil convencer o eleitor a trocar o voto por serviços.

VAZAMENTO DE INFORMAÇÕES

A máquina federal, segundo Góes, só consegue ser mobilizada, atualmente, para pequenas ações com impacto eleitoral limitado, como o controle de tarifas públicas. Mas, até nisso, ela dá sinais de enfraquecimento.

Numa medida impensável até pouco tempo atrás, a Petrobras aumentou o preço da gasolina e do gás de cozinha meses antes das eleições, chocando os coordenadores da campanha tucana.

Serra, como divulgou a imprensa, teve de reclamar muito do governo para que o presidente Fernando Henrique Cardoso acionasse, em julho, a Agência Nacional do Petróleo para reduzir o preço do gás ao consumidor.

O uso da máquina também poderia ser identificado, segundo analistas, no vazamento para a mídia de informações da Polícia Federal e da Corregedoria-Geral da União sobre investigações de corrupção envolvendo adversários políticos de Serra.

A pré-candidatura de Roseana Sarney à Presidência, pelo PFL, ruiu quando a imprensa mostrou imagens de 1,3 milhão de reais apreendidos pela Polícia Federal durante batida numa empresa da governadora do Maranhão.

"A velocidade com que mídia mostrou as imagens (do dinheiro) coloca o governo sob suspeita", comenta Etevaldo Dias, analista da empresa de consultoria política Santa Fé.

A Frente Trabalhista (PPS-PDT-PTB) acusa Serra e o governo de usar a mesma tática contra o vice de Ciro Gomes, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, investigado por suspeita de desvio verbas destinadas à Força Sindical pelo Ministério do Trabalho durante sua gestão como presidente da entidade.

O senador Roberto Freire, presidente do PPS, diz que órgãos do governo estão fabricando mentiras sobre Paulinho para prejudicar a candidatura de Ciro. "É um absurdo o governo utilizar uma corregedoria interna e a Polícia Federal como se fossem instrumentos de isenção", afirma.

Serra e o governo negam as acusações da Frente Trabalhista. O PT, por sua vez, prefere não esclarecer o que entende por bônus da máquina. "A frase é auto-explicativa", disse a assessoria de Lula, acrescentando que o partido "não tem interesse em polemizar com Serra".

FHC FAZ POUCO POR SERRA

No livro "Globalização, Subjetividade, e Totalitarismo" o filósofo Euclides Mance, da Universidade Federal do Paraná, dedica um capítulo ao uso da máquina nas campanhas de FHC ao Planalto, reunindo denúncias que não chegaram a ser investigadas embora tenham sido, segundo o autor, fartamente documentadas pela grande imprensa.

Entre as denúncias, Mance cita a doação de verbas federais, em 1994, para vários municípios do país alguns dias antes ou depois de eles receberem a visita de Lula e o ajuste de inauguração de obras ao calendário eleitoral. As acusações foram negadas, na época, pelo governo.

Este ano, no entanto, há poucas denúncias de uso eleitoral da máquina, ao mesmo tempo em que se percebe pouco esforço do governo na campanha de Serra.

"Como o próprio presidente não está envolvido na eleição, o empenho é menor", explica Góes. O analista observa que a candidatura de Serra não é consensual dentro do próprio governo e que FHC está "tomando cuidado para não se expor" porque "tem o compromisso de concluir bem o seu mandato".

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