UOL Notícias Notícias
 

02/11/2004 - 09h25

Kerry renasceu das cinzas políticas para enfrentar Bush

Por Patricia Wilson

WASHINGTON (Reuters) - Ele é alto, forte, é um veterano de guerra de sangue azul, exerce um mandato de senador por Massachusetts e carrega no nome as míticas iniciais JFK. John Forbes Kerry praticamente ressuscitou para a política para desafiar o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, na eleição desta terça-feira.

Tido como a melhor esperança dos democratas, ele estava bem atrás nas pesquisas antes das primárias de Iowa e New Hampshire, mas recuperou terreno quando os eleitores começaram a examinar melhor o cenário e lhe deram a vitória nas duas primeiras disputas internas do partido.

"Estavam dizendo: 'Oh, Kerry está morto. Ele está aquém das expectativas. Ele não pode vencer"', disse o ex-presidente Bill Clinton nesta semana. "Ele simplesmente continuou sendo John Kerry. E foi indicado para [a candidatura a] presidente."

Mas, apesar de quebrar o recorde de arrecadação do partido, angariando cerca de 200 milhões de dólares, em parte na Internet e entre democratas ávidos por derrubar Bush, Kerry, depois de indicado, parecia novamente carta fora do baralho.

"Diziam: 'Oh, Kerry está derrotado. Ele está muito atrás. Ele está mortinho"', lembrou Clinton. "E então ele nos brindou com três magníficos desempenhos naqueles debates."

Kerry, amplamente apontado como vencedor nos três debates contra Bush, reformulou sua campanha e trouxe ex-assessores da Casa Branca, que aguçaram seu foco e aceleraram sua resposta às tentativas republicanas de mostrá-lo como um liberal da Nova Inglaterra que muda de opinião em questões importantes, como a guerra do Iraque.

O senador pode ser às vezes turrão, e é conhecido por deliberar antes de tomar decisões e por se dar bem em disputas eleitorais apertadas. Durante a campanha, ele martelou o mantra contra as políticas econômicas e de segurança de Bush.

Já tinha sido assim na campanha das primárias democratas, quando ele começou atrás. Mas Kerry -- condecorado no Vietnã, educado em Yale e com experiência de duas décadas no Senado -- nunca desistiu.

Desde então, os problemas de Kerry, de 60 anos, dizem respeito principalmente à guerra no Iraque. Ele votou a favor da autorização para a invasão, mas depois criticou a "pressa" de Bush em começar o conflito sem apoio internacional ou um plano para o pós-guerra.

Ele explicou sua posição acusando o presidente de ter usado informações falsas para induzir o Senado a aprovar a guerra.

Em agosto, ele voltou a se complicar ao dizer que teria votado a favor da autorização mesmo se soubesse que não havia armas de destruição em massa no Iraque.

Mas foi outro voto -- e outra explicação -- que deram uma munição valiosa aos republicanos. Kerry votou contra o pedido de 87 bilhões de dólares feito pela Casa Branca para ajudar as tropas norte-americanas no Iraque e no Afeganistão e para arcar com a reconstrução. Antes, havia sido derrotado na tentativa de rever o alívio fiscal oferecido por Bush, o que compensaria o custos da guerra.

"Na verdade, votei a favor dos 87 bilhões de dólares antes de ter votado contra", disse Kerry.

A frase fez a festa dos republicanos, que levantaram dúvidas sobre sua capacidade de ser o comandante-em-chefe das Forças Armadas. Enquanto isso, um grupo chamado Veteranos do Swift Boat pela Verdade lançava uma cara campanha publicitária para desacreditar a atuação do candidato democrata na guerra do Vietnã.

Mas esse não foi o primeiro revés de Kerry. Quando ainda estava atrás nas primárias, ele reformulou sua equipe e demitiu o gerente da campanha. Sendo rico -- e casado com uma milionária -, abdicou do sistema de financiamento público de campanhas, que representa um limite de gastos de 45 milhões de dólares.

Ajudado pelas gafes de Howard Dean, o ex-governador de Vermont, e com uma mensagem de justiça social e conciliação na política externa, Kerry acabou obtendo uma surpreendente vitória na primária de Iowa, repetiu a dose em New Hampshire e abrindo caminho para a indicação.

À SOMBRA DE KENNEDY

O senador diz se inspirar na sombra de outro "nobre" de Massachusetts, John Fitzgerald Kennedy, e de fato ele cresceu à sombra do irmão do ex-presidente, o também senador Edward Kennedy.

O próprio Kerry vem de uma família tradicional, que remonta suas origens ao primeiro governador de Massachusetts, John Winthrop.

Para afastar a idéia de que ele é um elitista muito racional, incapaz de se comunicar com os eleitores, Kerry apareceu em programas de TV andando de moto, caçou gansos em Ohio, posou para a capa da revista American Windsurfer e soltou um palavrão em entrevista à Rolling Stone.

"Só fiz coisas nesta campanha que fossem autênticas", disse ele na terça-feira em entrevista à NBC. "Vou ser quem eu sou."

Kerry é um aguerrido defensor do direito ao aborto, apesar de, como católico, se opor à prática e acreditar que a vida começa na concepção. Ele também foi contra a orientação da Igreja ao defender as pesquisas com células-tronco embrionárias.

Apóia também a redução de impostos para a classe média, o aumento do salário mínimo, a ampliação do atendimento médico gratuito, e a defesa do meio ambiente. Em 1995, se empenhou, junto com o senador republicano John McCain, pela normalização das relações diplomáticas dos EUA com o Vietnã.

Kerry é um dos senadores mais ricos, graças à considerável fortuna de sua segunda mulher, Teresa Heinz Kerry. Nascida em Moçambique, Teresa é filantropa e herdeira da fábrica de ketchup Heinz, que herdou de seu primeiro marido, o senador republicano John Heinz.

Filho de um funcionário diplomático, Kerry estudou em colégio interno na Suíça e depois se formou em Ciências Políticas na prestigiosa universidade Yale. Como Bush, ele participou da sociedade secreta Skull and Bones ("crânio e ossos"), formada por alunos daquela universidade.

Em vez de ir direto para a Faculdade de Direito, Kerry se alistou na Marinha e partiu para o Vietnã. Comandando um barco no delta do Mekong, foi condecorado com uma Estrela de Prata, uma Estrela de Bronze e com três Corações Púrpura.

Foi no começo da década de 1970 que ele virou notícia pela primeira vez, já fora da Marinha, por criticar abertamente a guerra. Junto com outros veteranos, ele organizou uma passeata contra o conflito em Washington e prestou um memorável depoimento ao Congresso.

Em 1972, candidatou-se à Câmara, e perdeu. Matriculou-se então na Escola de Direito de Boston, tornou-se promotor e começou a atuar na política, até eleger-se pela primeira vez para o Senado, em 1984.

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -1,03
    3,146
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,09
    68.714,66
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host