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21/04/2006 - 14h47

Brasil se torna independente em petróleo

Por Andrei Khalip

RIO DE JANEIRO (Reuters) - O sonho brasileiro da auto-suficiência na produção de petróleo, originalmente concebido por um escritor de fábulas, está se tornando realidade num momento em que a maioria do mundo busca novas fontes de energia e o petróleo bate sucessivos recordes de preço.

Nesta sexta-feira, a Petrobras deu o primeiro passo nesse sentido, após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva acionar, na bacia de Campos, o início da produção da plataforma P-50, que vai ajudar o Brasil a produzir mais petróleo do que consome.

Nos anos 1930, Monteiro Lobato escreveu livros infantis populares e advogou pela exploração de petróleo no maior país da América Latina.

O empreendimento petrolífero de Lobato, um dos primeiros do Brasil, não teve sucesso. Mas suas visões de fartos barris de ouro preto vão se tornar realidade pelas mãos da Petrobras que lança nesta sexta-feira sua nova plataforma gigante de petróleo, trazendo a auto-suficiência ao país de 186 milhões de habitantes.

A plataforma P-50 vai adicionar 180.000 barris de petróleo por dia (bpd) à produção de cerca de 1,76 milhões de bpd, garantindo produção constante maior que 1,8 milhões de bpd, que é o atual volume de consumo doméstico.

Toda a produção é da Petrobras, que na última década passou de uma desajeitada estatal a uma companhia petrolífera de nível internacional e pioneira na exploração em águas profundas. A empresa perfura em profundidades tão extensas em relação à superfície do mar quanto a altura que os aviões comerciais voam nos céus.

O mais profundo poço de exploração de petróleo da Petrobras na bacia de Santos tem 6,9 quilômetros de extensão dentro do assoalho do oceano e a cabeça de poço está 2 quilômetros da superfície do mar. Ali já foram feitas descobertas promissoras de petróleo leve, raro no Brasil, a grandes profundidades, onde a alta pressão e a temperatura exigem tecnologias avançadas.

"A mudança na tecnologia de águas profundas usada pela Petrobras foi impressionante, mesmo se você pegar o período entre os anos 1990 e hoje. É extremamente avançada", disse o consultor da BJ Services, no Texas, José Marques Neto. Ele era o diretor de exploração da Petrobras em 1974, quando a empresa iniciou suas primeiras explorações de petróleo na costa do país.

A produção cresceu mais de 10 vezes desde então e 80 por cento da produção agora vem da exploração em águas profundas. Isso coloca o Brasil à frente de países com companhias estatais como México e Venezuela, que são mais ricos em petróleo, mas apenas agora começam a realizar explorações em águas produndas.

PREçOS DEVEM SEGUIR NíVEIS MUNDIAIS

A auto-suficiência e a habilidade de exportação não poderiam ter sido alcançadas pelo Brasil em melhor momento. A forte demanda mundial por petróleo impulsiona os preços e os Estados Unidos, maior economia do mundo, está buscando novas fontes de energia como o etanol --que já é uma das riquezas do Brasil.

Porém, enquanto muitos brasileiros esperam que a auto-suficiência vá trazer a redução dos preços dos combustíveis, o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, disse à Reuters que a autonomia pode apenas "amenizar o efeito das flutuações dos preços do petróleo aos consumidores locais" e que a companhia listada em Wall Street "não pode se afastar dos preços internacionais."

O Brasil vai continuar importando um pouco de petróleo leve estrangeiro para misturar com o petróleo pesado local, para que as 11 refinarias da Petrobras possam processá-lo. No entanto, esse montante vai ser gradualmente reduzido enquanto as refinarias são atualizadas para processar mais petróleo brasileiro.

As exportações de petróleo já reduziram 150 por cento no primeiro trimestre frente ao ano anterior, para 1,3 bilhão de dólares, e o Brasil espera terminar 2006 com sua primeira exportação líquida de petróleo no valor de 3 bilhões de dólares --adição bem vinda ao superávit comercial do país.

FELIZES PARA SEMPRE?

Se a história de auto-suficiência do Brasil vai terminar "feliz para sempre" ainda está em aberto. Geologistas alertam que é necessário mais investimento em prospecção, especialmente depois que novas reservas petrolíferas devem ser encontradas em profundidas maiores do que nunca.

"A suficiência é uma boa notícia e também uma má notícia já que significa extração de maiores reservas", disse o professor Giuseppe Bacoccoli, ex-superintendente de geologia da Petrobras que agora é consultor.

"Vamos estar usando 10 por cento das reservas por ano, o que significa que temos de descobrir 1 bilhão de barris adicionais anualmente e se a economia e o consumo do país crescerem, pode contar outros 1 bilhão", acrescentou ele.

A Petrobras vai gastar 28 bilhões de dólares em exploração e produção até 2010, metade de seu orçamento total de investimentos de 56 bilhões de dólares. Mas a empresa possui cerca de 15 projetos em fase de desenvolvimento, o que significa que a maioria do dinheiro será gasto neles, enquanto as explorações petrolíferas deverão ganhar menos atenção.

Medida promovida pelo governo para buscar gás natural e alimentar o crescente mercado domésticos pode gerar mais descobertas de gás, enquanto as reservas petrolíferas podem não receber o incentivo necessário, alertam especialistas.

As reservas comprovadas estão em cerca de 13 bilhões de barris de petróleo e a Petrobras pode produzir por cerca de 20 anos, segundo os níveis atuais.

Mas a demanda brasileira por combustível fóssil estagnou nos últimos anos em meio a fracos crescimentos econômicos, e também depois que o país começou a usar mais etanol feito a partir de cana-de-açúcar para abastecer os novos carros bicombustíveis, que funcionam tanto com gasolina quanto com etanol. O Brasil também mistura 20 por cento de etanol na gasolina vendida no país.

O Brasil abriu suas reservas para petrolíferas estrangeiras em 1997, encerrando cerca de 50 anos de monopólio da Petrobras, dominada por slogans nacionalistas como "o petróleo é nosso". Dúzias de empresas, incluindo gigantes do setor como a Royal Dutch Shell, a Chevron e a Total começaram a propectar.

A Shell é a única operadora estrangeira a produzir petróleo junto com a Petrobras e sempre criticou o Brasil pela pesada carga fiscal dirigida às empresas petrolíferas. Elas também enfrentam altos custos operacionais devido às dificuldades de extração de petróleo pesado de grandes profundidades.

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