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11/08/2006 - 10h46

DEPOIMENTO-Cara a cara com Fidel Castro

Por Andrew Cawthorne

NAIRÓBI (Reuters) - A maioria das pessoas que chega a Cuba bebe um mojito, cai no mar ou vai dançar salsa. Eu levei um sermão de duas horas de Fidel Castro.

Eu era o novato entre os correspondentes na ilha, e foi bem intimidador ser convocado para o gabinete privado do comandante por razões desconhecidas, tarde da noite, ao lado de três colegas.

Nossa agitação aumentou quando, após uma longa espera, ficamos frente a frente com um Fidel que espumava de raiva.

Temi que fosse me tornar o enésimo correspondente expulso de Cuba, embora não tivesse a mínima idéia de que ofensa eu poderia ter provocado em tão poucos dias no país.

Fidel, que completa 80 anos no domingo, não é visto em público desde a dramática "proclama à nação", em 31 de julho, que transferiu provisoriamente o poder a seu irmão Raúl, por causa de uma cirurgia intestinal. Mas ele estava bastante presente na época em que fui transferido para Havana, em 1998.

"Vocês mentiram a milhões em todo o mundo", bradou ele para nós quatro, agitando pilhas cuidadosamente ordenadas de reportagens das quatro agências que representávamos.

De certa forma, ele tinha razão. Um jornal de Miami afirmara que Fidel havia sido submetido secretamente a uma cirurgia no cérebro. Provou-se posteriormente que tudo havia sido inventado por um exilado cubano.

O jornal não tinha correspondente em Cuba, e as sucursais das nossas agências nos EUA haviam noticiado a história (embora dizendo que não podia ser confirmada). Então, fomos os alvos imediatos da ira de Fidel.

Inclinando-se para frente e brandindo o indicador, falou pelo menos durante 90 minutos antes que pudéssemos dizer uma só palavra. Depois de descarregar seu ódio, porém, seu humor mudou. E Fidel começou a fazer piadas sobre como alguém poderia, como ele, trabalhar 15 horas naquele dia depois de fazer uma cirurgia cerebral.

DISCURSOS EXAUSTIVOS

Assim começaram quatro anos cobrindo os humores, passeatas, viagens, sumiços, editoriais e discursos de Fidel.

Comparecer a seus legendários discursos, aliás, era uma experiência exaustiva, que às vezes exigia um dia de cama para a recuperação.

Todo mundo sabe que Fidel muitas vezes fala por cinco horas ou mais -- meu recorde é sete --, mas poucos percebem que os jornalistas que o acompanham investem ainda mais tempo.

Primeiro, é preciso passar por uma minuciosa revista, depois por uma longa espera até a sua chegada, os abraços do final, para então fazer algumas perguntas a ele, de modo que (com "sorte") você fica mais duas horas ouvindo suas respostas.

Isso pode ir madrugada adentro, mas ainda é preciso escrever a matéria. Para ficar de pé no dia seguinte, só com várias xícaras do forte café cubano.

A qualidade dos discursos variava muito. Em alguns dias, eu aproveitava para devorar discretamente vários capítulos de algum romance; em outros, eu saía correndo para transmitir a notícia.

Depois havia a repercussão: reprimendas de autoridades se você incluísse o comentário de um dissidente sobre o discurso, emails grosseiros de exilados cubanos simplesmente por cobrir as palavras de Fidel.

O Comandante pode desarmar com seu charme, mas também pode ser simplesmente amedrontador.

Num longo jantar em que recebeu um grupo de jornalistas, chegamos lá dispostos a fazer as perguntas mais duras que ele já teria ouvido. A maioria saiu pedindo o autógrafo dele.

Seus maiores fãs às vezes ficam frustrados, enquanto seus críticos normalmente se impressionam, comprovando a velha máxima das autoridades cubanas segundo a qual a ilha não é nem o paraíso descrito por seus admiradores no exterior nem o inferno relatado pelos detratores.

A imagem mais marcante que guardo é de quando ele chamou uma caravana de jornalistas e autoridades para uma viagem pela ilha, a fim de vistoriar pessoalmente as consequências de um devastador furacão.

Eu não fui -- uma decisão acertada, a julgar pelo fato de que o nosso produtor de TV perfurou um pulmão durante a extenuante viagem. Mas me despedi dos nossos nervosos cinegrafistas quando eles entravam no carro para seguir a comitiva de Fidel numa noite escura e com vento.

Fidel Castro viajando na tempestade: um poderoso simbolismo, sem dúvida.

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