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06/03/2008 - 16h28

ANÁLISE-Crise andina abala planos de integração sul-americana

Por Raymond Colitt

BRASÍLIA (Reuters) - A crise surgida nos Andes depois de a Colômbia ter atacado um acampamento de guerrilheiros dentro do Equador ameaça atrapalhar os planos de integração sul-americana e representa um teste às ambições acalentadas pelo Brasil de figurar como líder da região.

No conflito mais grave surgido entre os países latino-americanos em mais de uma década, o Equador e a Venezuela, nações aliadas, deslocaram soldados para suas fronteiras com a Colômbia em resposta à operação militar e suspenderam suas relações comerciais e diplomáticas com o vizinho.

A Organização dos Estados Americanos (OEA) criticou na quarta-feira a ação da Colômbia, um país afinado com os Estados Unidos, mas não chegou a condená-la.

O Brasil, a maior potência da região, deseja apaziguar o conflito entre os campos pró e anti-EUA além de salvaguardar seu objetivo de integrar a América do Sul, como contrapeso aos interesses econômicos dos europeus e dos norte-americanos na região.

"A crise ameaça a integração sul-americana e especialmente a expansão do Mercosul", afirmou Virgílio Arraes, professor de relações internacionais na Universidade de Brasília.

Participam do Mercosul o Brasil, a Argentina, o Paraguai e o Uruguai. A Venezuela, cujo presidente, Hugo Chávez, é inimigo dos EUA e deseja fazer a América Latina trilhar o caminho do socialismo, encontra-se em meio ao processo para entrar no bloco, apesar da resistência encontrada no Brasil e no Paraguai.

O envolvimento de Chávez no conflito atual renova as preocupações sobre a adesão da Venezuela, afirmou Arraes.

A crise também coloca em dúvida o lançamento, previsto para ocorrer nos próximos meses, da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), uma entidade que seguiria o modelo da União Européia (UE).

"O sonho de uma união política na América Latina será adiado", afirmou José Botafogo, chefe do Cebri, uma instituição voltada ao estudo de questões de política internacional, com sede no Rio de Janeiro.

EVITANDO O RECRUDESCIMENTO

O Brasil gastou milhões de dólares na construção de estradas e pontes com os países vizinhos e realizou concessões na área econômica para preservar a unidade do Mercosul.

O país anseia por ganhar mais peso na arena da diplomacia internacional e por obter uma cadeira no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU).

"Qualquer coisa que ameace a integração (latino-americana) é grave porque debilita nossa posição diante do mundo, enfraquece a posição da América do Sul diante de outros blocos econômicos", disse o ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim.

"Quanto menos unidos estivermos, mais facilmente seremos vítimas em negociações (comerciais)", afirmou o chanceler, apesar de ter ressaltado que o Brasil poderia ganhar força se conseguisse evitar o agravamento da crise e abrisse o caminho para uma solução duradoura dela.

A tarefa imediata é evitar uma escalada militar do conflito e ajudar uma comissão da OEA encarregada de investigar o ataque de 1o de março, realizado pela Colômbia no Equador.

Mas o maior desafio será aproximar os dois lados do grande abismo ideológico aberto na região, afirmaram especialistas.

O governo norte-americano custeia os militares colombianos e vê no presidente da Colômbia, Alvaro Uribe, seu mais forte aliado em uma região marcada por um forte sentimento de repulsa aos Estados Unidos.

Chávez é aliado do Equador e envia grandes somas de dinheiro para os governos esquerdistas da América Latina.

"A presença norte-americana na Colômbia complica as relações desta com seus vizinhos. Ninguém na América Latina sente-se confortável diante da forte presença norte-americana ali", afirmou Botafogo.

A maior parte da América Latina ficou do lado do Equador.

Segundo o Brasil, o governo dos EUA, que declarou seu apoio à operação militar da Colômbia, deveria manter-se afastado da crise.

"Quanto mais conseguirmos manter isso dentro da esfera latino-americana, maiores as chances de encontrarmos uma solução e evitarmos a polarização", disse Amorim.

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