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18/02/2010 - 15h15

Tradição haitiana do 'restavek' é vista como escravidão infantil

Por Jim Loney

PORTO PRÍNCIPE (Reuters) - Vivendo em uma tenda depois do terremoto que deixou um milhão de haitianos nas ruas, Melila Thelusma afirma que não é capaz de sustentar suas duas filhas e está pronta para dá-las a estrangeiros, caso encontre um bom lar para elas.

Apesar do desespero, Thelusma diz que nunca entregaria Gaelle, de 11 anos, e Christelle, de 6, a uma família haitiana, como fizeram dezenas de milhares de haitianos.

"Não a uma família haitiana. Os haitianos as fariam sofrer", disse Thelusma, de 39 anos. "Eles...forçam a criança a trabalhar como um animal. Eles não cuidam delas de verdade."

Profundamente arraigada na cultura da ex-colônia, a prática das famílias pobres de dar as crianças a parentes ou conhecidos mais ricos é conhecida no idioma crioulo como "restavek", termo oriundo das palavras francesas 'rester avec', ou seja, 'ficar com'.

Os críticos a chamam de escravidão.

As crianças, afirmam eles, são consideradas empregadas, forçadas a trabalhar sem receber pagamento, são isoladas das outras crianças da casa e raramente vão à escola.

"Um restavek é uma criança em situação de escravidão doméstica", afirmou Jean-Robert Cadet, ex-restavek que agora dirige uma fundação que visa melhorar a vida das crianças restavek (www.restavekfreedom.org).

Após o terremoto de 12 de janeiro, o governo haitiano advertiu que traficantes de crianças poderiam se aproveitar do caos para mirar as crianças vulneráveis. O drama bastante noticiado envolvendo 10 missionários norte-americanos pegos tentando passar pela fronteira com 33 crianças pareceu reforçar a ameaça.

Os críticos afirmam, entretanto, que dezenas de milhares de crianças haitianas foram entregues pelos próprios pais a uma vida de escravidão dentro do Haiti.

Um estudo de 2002 para o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e para outras organizações desenvolvido pelo Instituto Fafo para Ciências Sociais Aplicadas, da Noruega, diz que havia 173 mil crianças restavek, mais de 8 por cento da população entre 5 e 17 anos. Cadet acredita que existam mais de 300 mil.

Provavelmente a tradição do restavek data de quando o Haiti ainda era uma colônia francesa, quando os filhos dos escravos trabalhavam como empregados domésticos na casa do senhor. Cadet afirmou que uma lembrança dessa época, um chicote de couro retorcido, conhecido em crioulo como rigwaz, ainda é usado para bater nos restaveks.

A tradição do restavek permanece em parte porque é aceita, ou ao menos tolerada, pela cultura haitiana. Algumas famílias educam e alimentam suas crianças restavek, e alguns argumentam que as crianças morreriam se ficassem com os pais.

Os expatriados levaram as tradições do restavek aos Estados Unidos. Dois anos atrás, uma mulher e sua filha adulta foram condenadas em Fort Lauderdale, na Flórida, por manter uma adolescente haitiana como escrava durante seis anos.

A garota, Simone Celestin, descreveu no tribunal como era espancada, forçada a dormir no chão e a tomar banho com um balde.

Embora o Haiti seja signatário da Convenção das Nações Unidas para os Direitos da Infância, Caroline Bakker, conselheira do Unicef para proteção infantil, afirmou que não há lei para proteger as crianças restavek no Haiti.

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