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11/03/2010 - 17h29

Brasil tem condição técnica de receber urânio do Irã

Por Bruno Marfinati
Da Reuters
São Paulo

Um dos países que levantam a voz para defender o direito do Irã a um programa nuclear pacífico, o Brasil tem condições técnicas de receber o urânio enriquecido daquele país em troca de combustível nuclear para uso científico, disse o engenheiro Leonam Guimarães, assistente da presidência da Eletronuclear, que passa a integrar um grupo de especialistas da agência nuclear da ONU.

"O que o Irã está querendo é recarga de combustível para um reator de pesquisa... no Brasil nós temos quatro reatores deste tipo", disse Guimarães à Reuters.

"Essa possibilidade técnica existe, mas aí é um problema político", acrescentou, lembrando que o Brasil já produz seu próprio combustível nuclear.

As potências ocidentais acusam o Irã de ter a intenção de desenvolver armas atômicas, o que o governo de Teerã nega. E um acordo para a troca de combustível poderia significar uma saída para a longa disputa sobre seu programa nuclear.

Sob a proposta de intercâmbio de material feita no ano passado pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o Irã embarcaria 70 por cento de seu estoque de urânio baixamente enriquecido para o exterior, onde seria convertido em cápsulas de combustível compatíveis para o uso no reator médico, mas inviável para o desenvolvimento de armas nucleares.

Em fevereiro, o chanceler iraniano, Manouchehr Mottaki, disse que aceitaria enviar o material para ser reprocessado na Turquia, no Brasil ou no Japão, mas os Estados Unidos e seus aliados não chegaram a um acordo com a República Islâmica, que corre o risco de enfrentar uma quarta rodada de sanções da ONU.

A postura do governo brasileiro em insistir no diálogo e afirmar que é possível desenvolver um programa nuclear para fins pacíficos, como o Brasil, tem sido criticada pelos Estados Unidos. Durante visita a Brasília na semana passada, a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, não conseguiu obter apoio do país para as novas sanções.

"A comunidade internacional, em especial os países desenvolvidos, eles não acreditam, eles questionam (...) acham que o Irã está mentindo, mas o Brasil não pode partir do princípio que um país está mentindo", disse Guimarães.

CONSELHEIRO NA AIEA

O engenheiro naval especializado em energia nuclear, de 50 anos, foi convidado pelo diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Yukiya Amano, para integrar um grupo de especialistas a fim de assessorá-lo no desenvolvimento sustentável da energia nuclear no mundo.

A cada três anos, 20 especialistas dos países membros da agência são convidados a integrar o grupo, que em 2010 inicia seu quarto mandato. Segundo Guimarães, Amano fez questão de que um brasileiro participasse da equipe conselheira, que não tem característica de representação nacional.

"É um reconhecimento da própria agência quanto à importância do Brasil dentro do contexto da energia nuclear no mundo", afirmou.

A energia nuclear passou a ser vista como uma alternativa ao combustível fóssil, mas ambientalistas ainda questionam o tratamento que será dado aos resíduos que gera.

Segundo Guimarães, a Comissão Nacional de Energia Nuclear desenvolve dois projetos que devem equacionar o gerenciamento do lixo nuclear: o depósito definitivo de resíduos de baixa e média radioatividade e o depósito intermediário de longa duração para combustível usado.

O principal desafio, no entanto, será viabilizar a expansão da geração elétrica nuclear em países que ainda não têm um programa em desenvolvimento, disse ele.

Ele afirmou que a expansão da energia nuclear no Brasil não compromete sua matriz energética, uma vez que "a energia nuclear é limpa, contribuindo para a redução das emissões de dióxido de carbono", apontado como um dos principais gases do efeito estufa.

"A energia nuclear não é a solução, mas faz certamente parte da solução, e a longo prazo a importância dela tende a crescer significativamente", disse.

No Brasil, 90 por cento da energia elétrica é gerada por fonte renovável, seguida de 3 por cento por energia nuclear e o restante por carvão e a biomassa. Somente a "energia hidráulica, limpa e barata" não é mais suficiente para atender a demanda atual e futura, precisando cada vez mais da complementação térmica, segundo ele.

"Aí sim a energia nuclear tem um papel importante a desempenhar."

Guimarães disse que essa complementação tende a crescer pela própria necessidade de ampliação do sistema energético, que já não consegue ser atendido somente pelas hidrelétricas.

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