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12/03/2010 - 15h13

Safra recorde torna estreita e precária a rota da soja em MT

Por Roberto Samora

ALTO ARAGUAIA, Mato Grosso (Reuters) - "Não pode descuidar. Descuidou, já era", ensinou o caminhoneiro Antônio Rivaldo, apontando os riscos de "puxar" soja nas estradas de Mato Grosso.

"É um verdadeiro corredor da morte", continuou ele, falando quando o tráfego parou na BR-364, perto do município de Pedra Preta (MT), por causa de um acidente envolvendo um ônibus.

A BR-364 é um dos mais importantes canais de escoamento da safra de Mato Grosso, um Estado que depende das rodovias para transportar sua imensa produção agrícola, contando com terminais ferroviários apenas no sudeste do Estado, na fronteira com Goiás.

No caminho pela BR-364 até os terminais de Alto Araguaia e Alto Taquari, uma rodovia precária, com trechos quase intransitáveis e buracos pipocando em todo o percurso, a tragédia é iminente.

Perigo que cresce nesta época, quando milhares de caminhões trafegam pela estrada levando a safra recém-colhida para os portos exportadores, ou no caso da BR-364, em direção aos terminais ferroviários que recebem a carga das carretas.

"Outro dia, na saída do Araguaia, ajudei a socorrer a mulher de um colega", atestou Rivaldo, 30 anos de idade e 10 de profissão, enquanto o congestionamento de caminhões aumentava na BR.

Para se ter uma ideia do total transportado somente pela estrada, a ferrovia da ALL que parte de Mato Grosso em direção ao porto de Santos (SP) deve conduzir este ano mais de 10 milhões de toneladas (equivalente a cerca de 40 por cento da safra mato-grossense de soja e milho), volume este que passa antes pela BR-364.

A safra de soja de Mato Grosso que está sendo colhida é estimada em quase 19 milhões de toneladas, ante 18 milhões na temporada passada, segundo o Ministério da Agricultura. De acordo com produtores, até esta semana, o Estado havia colhido 77 por cento de sua produção esperada.

"Com uma safra recorde dessa, quem dera conseguíssemos atender a 100 por cento da demanda", afirmou Carlos Eduardo Monteiro de Barros, superintendente de Terminais da ALL, indicando que, apesar de investimentos recentes em equipamentos, a capacidade de atendimento ainda é insuficiente.

Desde que assumiu a concessão da malha ferroviária na região, em 2006, a ALL conseguiu reduzir o tempo de percurso do trem até o porto de Santos de 240 horas para 96 horas. Além disso, do ano passado para 2010, a capacidade de descarga de caminhões passou de 300 para 600 ao dia em Alto Araguaia.

Mesmo assim, filas quilométricas são vistas às margens da BR-364 em dias de pico de transporte.

RISCOS NA ESTRADA

Cerca de 200 km à frente daquele acidente, em Alto Araguaia, mais de 300 caminhões aguardavam no pátio da ALL para descarregar no terminal, que funciona 24 horas.

Em dias de movimento ainda maior, há duas semanas, uma fila de cinco quilômetros se formou na rodovia até a entrada do terminal de Alto Araguaia, com mais de mil veículos.

"Cheguei à 1h da manhã, peguei a senha 788 às 5h45, e descarreguei às 15h", relatou o motorista Idomar Fátima da Silva, sobre o tempo que levou para se ver livre da soja e pegar a estrada, em busca de um novo carregamento.

Esperar para descarregar, no entanto, parece ser o menor dos problemas dos motoristas após uma perigosa viagem, embora o pátio da ALL seja alvo frequente de reclamações.

Os caminhoneiros dizem que são obrigados, por exemplo, a pagar 2 reais pelo uso do banheiro de um boteco instalado no pátio, situação essa que, após analisada pelo Ministério Público, levou a empresa a anunciar melhorias e novos sanitários.

O perigo na estrada acaba sendo uma reclamação mais flagrante. "Se pegar um buraco desses aí, tomba. Outro dia peguei um, a minha sorte é que estava com as mãos firmes no volante", comentou Silva.

"Aumentou muito, os buracos aumentam na proporção da safra", comentou o caminhoneiro, queixando-se que os reparos feitos nas rodovias não são adequados, pois logo novas crateras se abrem com o vai e vem dos veículos pesados em uma região atingida por chuvas intensas nesta temporada.

Outro problema, agravado pelas condições da rodovia, é a imprudência e as "loucuras" dos caminheiros, relataram os próprios no terminal de Alto Araguaia.

"Parei pra jantar e vi um cara bêbado igual a uma égua, pedindo cerveja. Depois ele entrou no caminhão e saiu, chovendo, com o caminhão vazio, o que é mais perigoso", disse André Luiz de Paula, lembrando que muitos colegas também acabam consumindo drogas para conseguir rodar por mais tempo, em busca da "comissão". Afinal de contas, com safra recorde, não falta produto para ser transportado.

PROBLEMA HISTÓRICO, MELHORIAS À VISTA

Essa logística problemática, tanto de estradas esburacadas como de ferrovias escassas no Mato Grosso, espelham o resultado de anos de falta de investimento por todo o Brasil, avaliou o presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Cesário Ramalho.

"Não tivemos nenhum avanço em logística, isso tem desestimulado um pouco... A agricultura está crescendo, mas tem um ônus muito grande ainda, questões antigas. A logística sequestra a renda, literalmente", comentou Ramalho.

O frete de Sorriso (o maior produtor de soja do Brasil, no Médio-Norte de Mato Grosso) até Santos está em alta este ano, e sai em torno de 230 reais por tonelada. Isso representa mais da metade do valor da soja cotada em Sorriso, atualmente em 377 reais por tonelada, segundo fontes ligadas aos produtores.

Embora a ALL ofereça transporte a um custo mais baixo do que o rodoviário, essa vantagem do frete ferroviário acaba não sendo completa para o produtor de Mato Grosso, segundo especialistas, porque a companhia tem o monopólio da ferrovia. Além disso, a maior parte do produto levado por trens é das tradings.

"A ferrovia em Mato Grosso só serve pra diminuir um pouco o trânsito das estradas", disse uma fonte, que preferiu anonimato.

Normalmente, a ferrovia deveria oferecer transporte 30 por cento mais barato em comparação ao "sobre rodas", o que não é o caso em Mato Grosso, segundo fontes do setor produtivo. A ALL não divulga valores de frete.

Enquanto a safra cresce, aumenta a esperança de melhores condições de transporte em Mato Grosso. O governo promete até o final de 2011 a conclusão do asfaltamento da BR-163 em direção ao Pará, o que permitirá o escoamento da safra pelo norte do país .

Além disso, a ALL está investindo 700 milhões de reais, a maior parte financiada pelo BNDES, no prolongamento da ferrovia até Itiquira e Rondonópolis (MT), outra obra do Programa de Aceleração de Crescimento (PAC), que deve estar concluída em 2012, segundo a empresa.

(Com reportagem adicional de Marcelo Teixeira)

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