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28/05/2010 - 15h08 / Atualizada 28/05/2010 - 15h08

ANÁLISE-Aécio Neves e a difícil tarefa de equilibrar pratos

Por Natuza Nery

BRASÍLIA (Reuters) - Tal qual um artista chinês que equilibra pratos giratórios sobre finas varetas de madeira, o mineiro Aécio Neves terá pela frente desafios malabaristas.

De um lado, precisa garantir a vitória de seu pupilo ao comando do Estado, sob o risco de ver seu projeto de poder perder consistência. Do outro, a tarefa encomendada pelo PSDB de garantir um resultado favorável a José Serra no segundo maior colégio eleitoral do país. Isso tudo sem escantear seu antigo desejo de, um dia, ser presidente da República.

Sobram explicações para o peso desses desafios. No primeiro caso, uma derrota do governador Antonio Anastasia ao Palácio da Liberdade questionaria sua liderança e seu tamanho; assim como uma eventual vitória da petista em solo mineiro colocaria uma fatura indigesta nas mãos do ex-governador.

"Acho que ele vai se engajar. Não há outra opção. Se o Serra perder em Minas, Aécio estará em maus lençóis no PSDB", disse um tucano ligado ao presidenciável sob condição de anonimato.

Foi justamente nesta fase de aquecimento que Aécio decidiu passar três semanas no exterior descansando. O retiro no meio da pré-campanha deixou correligionários de cabelo em pé.

De volta ao Brasil no início desta semana, não tardou em negar mais uma vez a possibilidade de compor a chapa de Serra no lugar da vice. Mostra-se definitivo na intenção de concorrer ao Senado.

A ideia da dobradinha --considerada imbatível para levar a maioria dos votos em outubro-- sempre vem à baila quando o desempenho de Serra nas pesquisas sofre algum tipo de ameaça, como agora.

O fato é que, com reiterados nãos, o PSDB busca um vice que caiba em seu projeto e, de preferência, agregue mais tempo de TV à propaganda eleitoral gratuita.

O PP, com o senador Francisco Dornelles (RJ), faria bem esse papel. Nascido em Minas, é parente de Aécio. Sua adesão traria quase um minuto e meio a mais de evidência diária em cadeia nacional.

Em 12 de junho, José Serra deixa de ser "pré" e passa a ser oficialmente candidato. Há em sua campanha quem defenda a definição do vice depois desse evento, quando as alianças regionais já estarão sacramentadas.

Seria esse um sinal de que as negociações para a formação da chapa estão em ritmo aquém do desejado? Tucanos dizem que não.

"Qual o problema de ser depois?", indagou o pré-candidato à Reuters na última terça-feira.

Com o caminho livre, não faltam nomes a virtuais listas: parlamentares do DEM , do PSDB e Itamar Franco, do PPS. Mas a chapa pura parece ser hoje a opção mais forte caso o PP decida não apoiar ninguém ou se bandear para o lado da oponente Dilma Rousseff (PT), que sai com o PMDB na vice.

O SONHO

Aécio Neves faz política com os dois olhos vidrados no sonho de ser eleito ao comando do país. Conta milimetricamente seus passos e suas costuras a esse fim.

No ano passado, o mineiro colocou seu nome ao crivo interno e chegou a sugerir prévias. Sem maioria no partido, retirou-se de cena em dezembro.

"Houve por parte do Aécio uma proposta das prévias. Se o partido tivesse aceitado e ele fosse derrotado pelo Serra, ficaria muito difícil para ele recusar o cargo da vice. Aécio ficaria preso pela palavra, levado a cumprir um encargo partidário", avaliou Fábio Wanderley Reis, cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais.

Naquela ocasião, a cúpula tucana negou o pedido por acreditar que a consulta interna racharia a legenda.

Os próximos dias serão cruciais para observar o tamanho do envolvimento de Aécio Neves. Restam-lhe, porém, poucas alternativas. Muitos acreditam ser impossível engajar-se na campanha de Anastasia sem fazer o mesmo por Serra.

O preço da omissão vai além de possíveis derrotas nas urnas. Pode, por exemplo, fazer minguar o apoio de São Paulo --maior reduto eleitoral do Brasil-- quando quiser, e puder, viabilizar sua candidatura à Presidência. Ao mesmo tempo, uma vitória de Serra --e sua possível reeleição--, pode deixá-lo fora do grid por mais oito anos.

"Levando em conta seu projeto político, os desafios para Aécio não são poucos", adicionou Reis.

Os letrados do universo tucano afirmam que uma participação ativa em 2010 lhe renderia o lugar na fila de próximo candidato do PSDB. Ninguém no partido além das fronteiras de Minas Gerais aceitará a repetição do que fez em 2006, quando o engajamento do então governador à campanha presidencial de Geraldo Alckmin foi exaustivamente questionado.

Por isso, a imagem do artista chinês agora o componha tão bem.

Aécio Neves precisa equilibrar seus pratos sem deixar nenhum cair. Isso tudo antes, durante e depois do grande espetáculo.

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