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20/07/2010 - 19h32

Melhorar educação básica no Brasil é vital para mão de obra

Por Cesar Bianconi

SÃO PAULO (Reuters) - Mesmo antes de se formar, alguns estudantes de geologia já têm emprego garantido na Petrobras. Das mais de 200 vagas abertas da General Electric na América Latina, boa parte refere-se ao Brasil, por não conseguir encontrar profissionais preparados no país.

A falta de mão de obra qualificada --agravada pela expansão da economia brasileira-- ficará de herança para o próximo presidente da República e será um de seus desafios. Pesquisa da consultoria de recursos humanos Manpower indicou que quase dois terços dos empregadores no Brasil têm dificuldade em 2010 para encontrar profissionais.

"Se nós utilizarmos a história como conselheira, vamos verificar que há muitos países do mundo que não tinham recursos naturais e progrediram, mas não há nenhum país do mundo que não tinha recursos humanos e progrediu", afirmou o professor José Pastore, da Universidade de São Paulo (USP).

O atual governo reconhece o problema, mas classifica a situação como "monentânea", como declarou à Reuters o ministro da Educação, Fernando Haddad.

Acadêmicos apontam para a falta de qualidade da educação fundamental pública no Brasil, com professores pouco preparados e desvalorizados.

"Temos visto avanços na educação, sobretudo no campo quantitativo. No campo qualitativo, porém, temos parcela relevante de adolescentes com sete, oito anos de estudos com dificuldade para entender o que leem e fazer contas de aritmética comum", afirmou Pastore.

O professor Walter Vicioni, superintendente do Serviço Social da Indústria (Sesi) e diretor-regional do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) em São Paulo, lembra que isso tem implicações no Ensino Médio e, em seguida, na escolha da faculdade pelo estudante.

"Mais de metade das vagas em cursos de engenharia e tecnologia em instituições privadas de ensino não estão ocupadas. O ensino de ciência e tecnologia não está sendo desenvolvido nas escolas, e os estudantes acabam optando por ciências humanas nas facultades, por terem medo de matemática, química", comentou Vicioni.

O ministro da Educação rebate as críticas, afirmando que o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) subiu de 3,8 para 4,6 na educação básica no Brasil entre 2005 e 2009, em uma escala até 10. Na prática, isso indica que a criança do quinto ano tem hoje a proficiência que tinha a criança do sétimo ano em 2005. Ainda assim, abaixo do desejável.

Haddad defendeu a estratégia do governo de investir no Ensino Superior e em cursos técnicos. Dados do Ministério da Educação mostram que as vagas em universidades federais subiram de 109,2 mil para 222,4 mil desde 2003. "Já estávamos antevendo (carência de mão de obra). A oferta e a demanda por trabalhadores qualificados vão se encontrar muito brevemente", assegurou.

O atual quadro motiva empresas e indústrias a investirem elas mesmas na formação de profissionais cada vez mais.

Pela iniciativa privada, Sesi e Senai são exemplos disso. No Estado de São Paulo, apenas no Senai foram mais de 1 milhão de matrículas em cursos de aprendizagem industrial, técnico e superior, entre outros, em 2009 --alta de 40 por cento sobre 2004. O Sesi, presente em 125 municípios paulistas e com 215 unidades escolares, tem quase 171 mil alunos, a maioria no ensino fundamental.

DIPLOMA ACELERADO

Um geólogo da Petrobras, que falou sob condição de anonimato, passou num concurso público seis meses antes de se formar na faculdade. Quando foi chamado para o trabalho, teve que acelerar a obtenção do diploma, a pedido da estatal, que ansiava por profissionais na área.

Esse mesmo geólogo contou que a petrolífera não conseguiu preencher vagas de geofísicos de recente concurso. A estatal nega que isso tenha acontecido ou que tenha dificuldade de encontrar profissionais.

A empresa criou a Universidade Petrobras, para complementar a formação e capacitar empregados. Para o cargo de engenheiro de Petróleo, a companhia admite engenheiros de qualquer formação e os treina em curso de cerca de 11 meses antes do início de suas atividades. Em 2009, a companhia investiu 115,9 milhões de reais em treinamento e desenvolvimento de pessoal.

A General Electric, por sua vez, tem feito mais comunicação sobre o esforço para encontrar profissionais habilitados a preencher vagas em suas unidades voltadas à indústria petrolífera e no negócio de produção de locomotivas no Brasil.

MIGRAÇÃO INTERNA

Além da evidente demanda por talentos no setor petrolífero, pelos vultosos investimentos para exploração do petróleo no pré-sal, o diretor da consultoria Manpower Brasil Pedro Guimarães destaca a carência de pessoal em telecomunicações e tecnologia da informação. Com formação nessa área, ele estima de 100 mil a 200 mil vagas não preenchidas no Brasil.

Como alternativas para o curto prazo, Guimarães indica a migração de trabalhadores qualificados de um Estado para o outro e o investimento na recapacitação de profissionais pelas próprias empresas.

Ele alerta que a falta de profissionais "cresce na mesma proporção" que a expansão da economia, ao ser questionado sobre as bases para sustentar uma alta do Produto Interno Bruto (PIB) em torno de 4,5 por cento nos próximos anos.

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