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24/07/2010 - 18h31

ANÁLISE-Chávez e Uribe no confronto final

Por Frank Jack Daniel

CARACAS (Reuters) - O relacionamento mais rebelde da América Latina está acabando com muito estardalhaço, e as consequências do último confronto entre o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, que está para deixar o cargo, poderão deixar uma marca duradoura nas relações regionais.

Depois de oito anos de disputas com o socialista Chávez, o aliado dos EUA, Uribe chegará ao fim do seu segundo mandato no dia 7 de agosto, deixando um legado bilateral de diplomacia estremecida, relações comerciais rompidas e um conflito em relação aos acampamentos da guerrilha colombiana na Venezuela, que vai pairar sobre a América Latina durante anos.

Chávez rompeu relações com a Colômbia na quinta-feira, depois que o enviado de Bogotá junto à OEA fez um veemente ataque à Venezuela, por supostamente abrigar 1.500 rebeldes colombianos esquerdistas.

Chávez, um crítico feroz dos EUA, disse que a acusação da Colômbia foi um pretexto para uma possível invasão da Venezuela, com o apoio dos EUA.

"Culpo Uribe, doente de tanto ódio, ele irá direto para a lixeira da história", disse Chávez.

Ex-militar, Chávez sempre negou apoiar as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, ou rebeldes da FARC, apesar da insistência da Colômbia em dizer que relatórios da sua inteligência mostram ligações claras.

Mês que vem, Uribe passa a presidência ao ex-ministro de defesa, Juan Manuel Santos, um companheiro de idéias conservadoras, que pretende melhorar as relações com a Venezuela, para recuperar os milhões de dólares que foram perdidos no comércio bilateral.

É possível que isso aconteça assim que Santos assuma o poder, já que as economias dos dois países sofreram com a perda de quase 7 bilhões de dólares anuais.

Mas o enviado de Uribe, Luis Alfonso Hoyos, mostrou fotos e mapas de supostos acampamentos da FARC na Venezuela, no Conselho Permanente da OEA, enquanto pedia veementemente que uma comissão internacional seja formada para checar a veracidade das informações, uma ação que busca fazer pressão internacional sobre Chávez.

"Mesmo que Santos consiga começar uma nova etapa nas relações entre os dois países, caçar as FARC no território Venezuelano será um problema, que a partir de agora passará a ser uma prioridade estratégica dos colombianos", disse Robert Munks, diretor da Jane's Country Risk para as Américas.

CORTE CRIMINAL

Uribe vem ameaçando há tempos levar Chávez à Corte Criminal de Haia pelo seu apoio ao 'terrorismo', e agora está fazendo movimentos nessa direção.

"Primeiro Uribe precisa tentar usar todas as medidas legais contra Chávez, inclusive a OEA, antes de chegar à Haia", disseram em uma nota, analistas Venezuelanos da Global Source Partners.

"Esses objetivos explicam a veemência com que Hoyos apresentou as provas contra Chavez e listou os tratados internacionais violados pelo governo venezuelano."

Chávez, herdeiro de Fidel Castro do cargo de principal problema dos EUA na América Latina, e Uribe, um conservador que aceita ajuda militar de Washington, jamais poderiam ser bons vizinhos.

Surpreendentemente, eles conseguiram superar suas diferenças durante anos, depois que Uribe tomou posse em 2002 e firmaram relações comerciais nas quais fazendas e fábricas colombianas exportavam seus bens para a Venezuela.

Tudo mudou em março de 2008, quando um bombardeio colombiano em um acampamento guerrilheiro no Equador matou um alto comandante das FARC e mais de outras 20 pessoas.

O Equador cortou relações com Bogotá depois do ataque e Chávez mandou tanques até a fronteira da Venezuela com a Colômbia. Praticamente todos os países sul americanos condenaram o ataque.

No ano passado, as relações pioraram ainda mais, depois que a Colômbia fez um acordo permitindo que os soldados dos EUA tenham acesso às suas bases militares para lutar contra os rebeldes e as drogas. Chávez ordenou que as relações comerciais fossem interrompidas.

Agora, apesar de dizer que tem provas concretas da presença da guerrilha na Venezuela, escolheu o caminho da diplomacia barulhenta, em vez de uma ação militar --um sinal de que a Colômbia possa estar cautelosa em relação à resposta de Chavez a qualquer ataque.

Mas Uribe também espera conseguir isolar Chávez, se convencer os outros governos sul americanos que a Venezuela apoia o 'terrorismo' e representa uma ameaça à região.

Um encontro do bloco regional Unasul (União das Nações Sul Americanas), que acontecerá nos próximos dias, será o primeiro teste para saber se essa estratégia vai funcionar. A Colômbia conta com o apoio dos governos conservadores do Chile e do Peru, mas a região ainda é dominada por líderes com maiores afinidades com Chávez.

"Um jogo internacional jogado por aliados venezuelanos e colombianos começou. Os amigos da Venezuela, principalmente, o Brasil e a república Dominicana, provavelmente trabalharão para restabelecer a normalidade", disse a Global Source Partners.

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