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31/01/2011 - 19h37

Egito anuncia que vai dialogar com oposição sobre reformas

Por Samia Nakhoul e Alison Williams

CAIRO (Reuters) - O vice-presidente do Egito, Omar Suleiman, disse na segunda-feira que o presidente Hosni Mubarak lhe pediu que inicie o diálogo com todos os partidos políticos, o qual incluirá temas como reforma legislativa e constitucional -- exigências básicas feitas por manifestantes anti-Mubarak.

As emendas constitucionais incluem reduzir restrições a candidaturas para a próxima eleição presidencial.

"O presidente me pediu hoje (segunda-feira) para manter imediatamente contatos com as forças políticas para começar um diálogo sobre todas as questões levantadas, que também envolvam reformas constitucionais e legislativas, de um modo que resultará em claras emendas e num cronograma específico para sua implementação", disse Suleiman em um pronunciamento na TV.

A reforma constitucional é uma das exigências fundamentais dos manifestantes que desde a semana passada protestam no Cairo e outras cidades para pressionar pela renúncia de Mubarak, que está há 30 anos no poder.

As Forças Armadas prometeram na segunda-feira não atirar em manifestantes pacíficos, enquanto milhares de pessoas, libertas do medo após décadas de opressão, tentam levar a cabo sua campanha pela deposição de Mubarak.

O Exército, que colocou Mubarak, um ex-brigadeiro, no poder em 1981, parece estar revendo sua posição de lealdade ao regime, depois de a oposição anunciar que pretende levar 1 milhão de pessoas às ruas na terça-feira, quando a onda de protestos completa uma semana.

O comando militar pode estar mais interessado em preservar o sistema de governo apoiado pelo Exército, existente há 60 anos, do que em prolongar o regime pessoal de Mubarak, de 82 anos.

Os Estados Unidos e a União Europeia renovaram seus apelos para que Mubarak aceite o desejo popular, mas não chegaram a pedir explicitamente a renúncia do seu veterano aliado.

Já os egípcios que foram às ruas deixaram sua vontade muito clara.

"As pessoas querem o presidente fora!", gritavam milhares no Cairo. "Acorde, Mubarak! Hoje é o seu último dia", era a palavra de ordem em Mahalla, localidade com forte indústria têxtil, no delta do Nilo.

As manifestações, inspiradas na rebelião popular que derrubou o governo da Tunísia neste mês, repercutem também em outros países árabes, além de causar inquietação em mercados financeiros do mundo todo.

Tentando reverter a situação, Mubarak nomeou seguidores seus para cargos importantes, o que não contentou os manifestantes.

"Não há volta. Não há medo", disse Hassan Shaaban, de 35 anos, que participa dos protestos permanentes no centro do Cairo. "Depois de Mubarak, nenhum outro presidente irá ousar nos oprimir."

A VOZ DO EXÉRCITO

Desde sexta-feira, depois de a odiada polícia de Mubarak confrontar jovens manifestantes, o Exército foi colocado nas ruas com seus tanques norte-americanos, numa tentativa do governo de demonstrar força.

Mas os soldados, amplamente admirados pelos egípcios, observaram os protestos pacientemente, deixando que as pessoas expressassem sua fúria contra a pobreza e a ditadura.

Em seus primeiros comentários formais sobre os fatos, na segunda-feira, o comando das Forças Armadas divulgou uma nota com teor calculado para agradar a opinião pública.

"As Forças Armadas não vão recorrer ao uso da força contra o nosso grande povo", disse o texto, prometendo no entanto reprimir saqueadores.

"As suas Forças Armadas, que estão cientes da legitimidade das suas exigências e dispostas a assumirem sua responsabilidade de proteger a nação e os cidadãos, afirmam que a liberdade de expressão por meios pacíficos é garantida a todos."

Reunidos em Bruxelas, na Bélgica, chanceleres da União Europeia defenderam uma "transição ordeira para um governo amplo, levando a um processo genuíno de reformas democráticas essenciais."

Em Washington, o porta-voz da Casa Branca disse que Mubarak precisa atender às insatisfações de seus 80 milhões de habitantes, e lhes dar liberdade.

Mas os EUA, que durante décadas ajudaram Mubarak com armas e bilhões de dólares, por vê-lo como uma defesa para conter o radicalismo islâmico no Oriente Médio, evitaram defender com todas as letras a renúncia do presidente.

MANIFESTAÇÕES

Cerca de 140 pessoas já morreram em confrontos com as forças de segurança, em cenas que contrariam a imagem do Egito como um país estável, um destino turístico atraente e um mercado emergente promissor.

Os manifestantes protestam contra a pobreza, a desigualdade social, o desemprego, a corrupção e a falta de liberdades políticas.

Mubarak reagiu aos protestos oferecendo uma reforma econômica. O novo ministro das Finanças, Samir Radwan, disse à Reuters que ainda não tem novas medidas a oferecer, mas que combater as dificuldades econômicas será "uma missão nacional num momento muito crítico".

O Egito está sob toque de recolher, mas na noite de segunda-feira, horas depois do início das restrições, os soldados continuavam sem fazer nenhum esforço para dispersar os manifestantes. Helicópteros militares sobrevoavam os protestos.

"Só vou para casa quando Mubarak sair", dizia um cartaz.

Alguns manifestantes usavam seus celulares para pedir a adesão de parentes e amigos às grandes passeatas de terça-feira.

As reformas anunciadas por Mubarak foram desprezadas por esses manifestantes.

"Isso tudo é um absurdo", disse Omar el-Demerdash, de 24 anos, executivo de pesquisas. "A exigência é clara: queremos que Mubarak e seus homens saiam. Qualquer coisa além disso simplesmente não é suficiente."

Na segunda-feira, Mubarak nomeou o general Mahmoud Wagdy como ministro do Interior, substituindo Habib al-Adli, um homem odiado por suas táticas repressivas.

Embora o movimento tenha começado sem organização ou líderes evidentes, a oposição está tentando se coordenar.

O grupo islâmico Irmandade Muçulmana disse que pretende formar uma ampla comissão política, incluindo o Nobel da Paz Mohamed ElBaradei, para conversar com o Exército.

A Irmandade, que tem grande apoio entre egípcios pobres, até agora se manteve discreta, temendo uma repressão sangrenta. À frente dos protestos estão principalmente estudantes e classes baixas urbanas.

Na segunda-feira, no entanto, a Irmandade pediu à população que continue os protestos até que Mubarak e o seu Partido Nacional Democrático sejam apeados do poder.

(Reportagem adicional de Andrew Hammond, Patrick Werr, Dina Zayed, Marwa Awad, Shaimaa Fayed, Sherine El Madany, Yasmine Saleh, Alison Williams e Samia Nakhoul, no Cairo; e de Peter Apps, Angus MacSwan e William Maclean, em Londres)

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