ESTREIA-Animal pré-histórico e menino das cavernas protagonizam animação "O Bom Dinossauro"

SÃO PAULO (Reuters) - O impacto da originalidade, eficiência e comoção que “Divertida Mente” obteve entre a crítica e o público gera, consequentemente, uma enorme pressão para o próximo lançamento da Pixar, “O Bom Dinossauro”.

Assim, na hora das inevitáveis comparações, muitos notarão as diferenças de estilo nos roteiros e nas técnicas de animação de ambos, mas não o complemento temático e moral que a nova produção de Peter Sohn traz à mensagem do sucesso anterior de Pete Docter e Ronnie Del Carmen sobre o sabor agridoce da vida e a necessidade de vivenciá-la em todas as suas emoções.

A história parte de uma suposição, explícita na primeira sequência como um curioso prólogo: e se o meteoro que teria levado os dinossauros à extinção não atingisse a Terra e os gigantescos animais coabitassem no planeta junto com os primeiros homo sapiens?

Deste modo, o público é apresentado a uma família de apatossauros fazendeiros –não só esta espécie, mas outras também aparecem antropomorfizadas–, na qual Arlo é o caçula atrapalhado, incapaz de realizar as tarefas diárias para a manutenção da plantação de milho e a subsistência deles.

Quando precisa capturar a criatura que está roubando o celeiro, o jovem não consegue detê-la, o que, somado a outros trágicos acontecimentos, o separa de sua família e o faz atravessar quilômetros da bela natureza selvagem com o pequeno humano, um “menino das cavernas” que tentara perseguir antes, a quem deu o nome de Spot depois de serem obrigados a sobreviverem juntos.

Assim, a conhecida ideia de enfrentar seus medos, em que a jornada é o que leva o protagonista ao amadurecimento, guia a trama.

Não se trata, portanto, de uma dos melhores obras do famoso estúdio, especialmente no que se espera de excelência narrativa de seus trabalhos, mas nem por isto é ruim. Na realidade, é o longa da companhia que mais se aproxima do espírito e trama das clássicas animações da Disney, a quem pertence desde 2006.

É a primeira vez, por exemplo, que a Pixar trata abertamente dos temas da perda e do luto. E, por mais que as referências e semelhanças sejam evidentes aos pais e adultos em geral, que assistiram “Em Busca do Vale Encantado” (1988) – este, no caso, da Universal –, “O Rei Leão” (1994) e “Bambi” (1942), entre outros lacrimejantes inesquecíveis, a abordagem é uma novidade para esta nova geração que não viu isso em filmes mais recentes.

Aliás, além da relação entre um animal pré-histórico e uma criança humana já vista em “Era do Gelo” (2002), embora o garoto aqui esteja mais próximo do “Mogli – O Menino Lobo” (1967), e uma alusão à alucinação de “Dumbo” (1941), é da saga do jovem leão Simba, por sua vez, inspirada em “Hamlet” de Shakespeare, que o longa guarda mais elementos: há as marcas das patas e figuras vilanescas, tanto os pterodáctilos quanto os velociraptores, que se assemelham ao trio de hienas, assim como o próprio afastamento de sua família ou clã e as dúvidas sobre seu propósito no mundo.

No entanto, nada disso é realmente prejudicial ao roteiro, cuja história foi criada a dez mãos, incluindo as do estreante Peter Sohn, que dirigiu o curta “Parcialmente Nublado” (2009) e participou da arte e da dublagem de outras produções do estúdio, e as de Bob Peterson, diretor de “Up: Altas Aventuras” (2009) que estava à frente do projeto antes de ser desligado por divergências criativas.

Ficou a cargo de Meg LeFauve, roteirista de “Divertida Mente”, finalizar o conturbado script, mas nem ela foi capaz de solucionar o terceiro ato e não se apoiar somente em Spot como alívio cômico. Outros personagens aparecem neste sentido, porém, são apenas participações rápidas durante a jornada de volta para casa do protagonista.

Contudo, os problemas de produção não repercutem nos aspectos técnicos do longa, cujos avanços em animação se refletem no realismo das paisagens naturais inspiradas no noroeste dos Estados Unidos –e vem garantindo a “O Bom Dinossauro” indicações em premiações especializadas.

E se o estilo mais cartunesco dos personagens se diferencia do naturalismo do cenário, é algo proposital para transmitir a fragilidade de Arlo frente à natureza, sua antagonista a ser desafiada e respeitada ao mesmo tempo.

Além do subtexto ambiental implícito, é interessante a inversão trazida na dinâmica do garoto com seu cachorro/fera, sendo a figura humana a “selvagem”, potencializando o discurso de respeito às diferenças. Entretanto, é no tratamento da família como tema de discussão que o filme traz, silenciosamente, o que a Pixar faz de melhor: emocionar verdadeiramente seu espectador.

(Por Nayara Reynaud, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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