CENÁRIOS-Estoques do varejo de moda seguirão elevados após vendas fracas de fim de ano

Por Luciana Bruno

RIO DE JANEIRO (Reuters) - O varejo brasileiro de moda está tendo dificuldade para resolver um dos problemas que vem prejudicando o setor: os elevados níveis dos estoques que têm onerado suas finanças e que seguem subindo diante das fracas das vendas do quarto trimestre, algo que deve se repetir no início deste ano.

A manutenção de altos patamares de produtos estocados implica custos financeiros devido à necessidade de remarcar preços, uma vez que as coleções acabam se tornando ultrapassadas com o tempo.

"As vendas do quarto trimestre foram bem ruins. E mesmo o Natal não ajudou a melhorar o nível dos estoques", disse o analista do Brasil Plural Guilherme Assis.

As empresas têm apostado em fortes descontos para incrementar as vendas. A Riachuelo, da Guararapes, anunciou descontos de até 60 por cento em janeiro, assim como as concorrentes Lojas Renner e C&A. Outras varejistas também anunciaram liquidações, como Marisa Lojas, de até 80 por cento, e Cia Hering.

Nos três primeiros trimestres do ano passado, os estoques das principais varejistas de moda de capital aberto cresceram mais de 13 por cento na comparação ano a ano, e esse cenário deve ter se mantido inalterado no quarto trimestre. O Instituto de Estudos e Marketing Industrial (Iemi) avalia que o faturamento do varejo de moda no Brasil teve queda real de 1 a 4 por cento no período do Natal, o mais importante do ano para o setor.

Segundo o Iemi, para 2015 como um todo, a expectativa é de queda de 4,2 por cento no volume de vendas, para 6,2 bilhões de peças comercializadas, enquanto as receitas devem ter ficado estáveis em 184 bilhões de reais. Os números oficiais saem em maio.

"O faturamento só não foi menor porque houve aumento de preços", disse o diretor do Iemi Marcelo Prado. O preço médio por peça deve ter subido 4,3 por cento em 2015, estimou.

Neste ambiente, as empresas tentam adequar suas compras aos novos patamares de vendas, mas o ritmo do processo de ajuste varia de acordo com a companhia.

Segundo o diretor administrativo, financeiro e de relações com investidores da Marisa Lojas, Adalberto Pereira, a empresa já conseguiu melhorar seus índices de estoque depois de ter detectado já no fim de 2014 a tendência de crescimento em meio à desaceleração das vendas.

"Esse foi um dos motivos que nos fez adiantar a promoção de janeiro para logo depois do Natal, já no fim de 2014", disse o executivo, explicando que a mesma estratégia foi adotada em 2015. Segundo ele, a tendência é de continuidade do ajuste dos estoques, com adequação no lado das compras.

"Conseguimos antecipar esse movimento (em relação ao mercado)", disse Pereira. "Trabalhando com expectativa de venda menor, começamos antecipadamente a comprar menos e deixar que as vendas fizessem o ajuste natural", declarou.

A estratégia de reduzir as compras é o que resta diante da fraca expectativa para as vendas em 2016. A previsão da Marisa Lojas é de crescimento fraco ou estabilidade de receitas este ano, em linha com as projeções do Iemi, que prevê "crescimento vegetativo".

"O primeiro trimestre deve continuar fraco, com algum crescimento sendo registrado em abril", disse diretor do Iemi, lembrando que a temporada de outono e inverno costuma ser mais rentável para o setor, porque os produtos vendidos têm maior complexidade e, consequentemente, maior valor médio.

A projeção do Iemi para este ano é de volume de vendas estável, com variação positiva de 0,8 por cento, para 6,26 bilhões de unidades, e alta de 8,5 por cento das receitas, diante de um aumento previsto de 7,6 por cento do preço médio por peça.

A visão é compartilhada pela Associação Brasileira do Varejo Têxtil (ABVTEX), segundo a qual este ano continuará "desafiador".

"Vai exigir esforços das empresas, redução dos estoques, aumento da produtividade, revisão dos processos internos. Não há como ter projeções otimistas nesse momento", disse o diretor-executivo da associação, Edmundo Lima.

IMPORTAÇÕES

O ano de 2016 também será marcado por uma mudança na tendência registrada nos últimos cinco anos no varejo de moda brasileiro, quando houve importação crescente e redução da produção dos fornecedores domésticos.

A expectativa do Iemi é que a participação das importações no consumo aparente de vestuário no Brasil recue de 13 por cento em 2015 para 9,1 por cento em 2016. Trata-se do menor patamar desde 2010, quando essa participação estava em 6 por cento.

A mudança ocorrerá por conta da valorização do dólar frente ao real. O impacto será sentido principalmente este ano, uma vez que existe uma defasagem de um ano entre a aquisição das peças e o lançamento dos produtos nas vitrines.

Paralelamente, a previsão é de aumento de 5,5 por cento da produção doméstica de têxteis, para 6 bilhões de peças, uma vez que os fornecedores locais passam a atender a maior demanda das varejistas. Em 2015, a produção deve ter recuado 6,1 por cento.

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