Furtos de defensivos agrícolas em Mato Grosso disparam com alta de preços

Por Gustavo Bonato

SORRISO, Mato Grosso (Reuters) - Os altos preços dos defensivos agrícolas, impulsionados pela alta do dólar ante o real, têm estimulado um aumento dos furtos e roubos em fazendas no Mato Grosso, maior produtor de grãos do país, causando dor de cabeça e perdas financeiras a produtores.

O número de furtos e roubos de defensivos no Estado, principalmente com ataques a depósitos nas propriedades rurais, saltou 82 por cento em 2015, para 51 casos, contra 28 registros em 2014, segundo dados da Secretaria Estadual de Segurança Pública compilados a pedido da Reuters.

Nas primeiras semanas de 2016, apesar de não haver estatísticas fechadas, os casos continuam frequentes.

O produtor Orcival Guimarães teve uma carga de defensivos agrícolas avaliada em 1,3 milhão de reais roubada de sua fazenda no município de Matupá, na semana passada.

"Vizinhos viram duas caminhonetes com seis a oito pessoas, por volta da meia-noite... Cortaram o cadeado do depósito. Foram seletivos, pegaram os produtos mais caros", relatou.

Nesta época do ano, em que a soja está em plena fase de desenvolvimento, esse tipo de ação é facilitada pelas grandes quantidades de defensivos que os produtores precisam manter perto das lavouras para aplicação contra doenças e pragas.

Os preços dos defensivos estão atualmente 30 por cento mais elevados do que um ano atrás, refletindo uma alta de 45 por cento na cotação do dólar frente o real no mesmo período, segundo levantamento do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea).

"Em razão do alto valor agregado desse produto, as quadrilhas que lidavam com roubo a banco e de carro-forte estão migrando", disse o delegado da Polícia Civil de Mato Grosso Diogo Santana, que lidera as investigações a esse tipo de crime. "A lucratividade é maior e o risco é muito menor."

O isolamento das fazendas, a dificuldade de patrulhamento policial nas grandes extensões de terra de Mato Grosso e a fraca segurança dos depósitos nas propriedades --muitas vezes um pequeno galpão fechado com uma tranca simples-- facilitam a ação dos bandidos. A maior parte dos registros é de furtos, à noite, sem violência.

Segundo Santana, os crimes são cometidos por grandes quadrilhas que atuam sob encomenda.

"Quem comete o crime já sabe para quem vai vender. Ele sabe qual produto precisa levar", destacou o delegado.

Na avaliação do presidente da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso (Aprosoja), Endrigo Dalcin, alguns produtores em más condições financeiras, em um momento de crédito mais apertado no país, podem estar buscando a alternativa de uma compra ilegal.

"O problema é a receptação... Tem maus produtores no meio desse esquema, tem revenda de produtos agrícolas", disse ele.

Segundo ele, esse tipo de roubo não chega a ameaçar a produção de soja de Mato Grosso, mas instala um clima de grande insegurança entre os agricultores.

"Eu mesmo já tive ameaça de roubo. Tivemos que contratar segurança particular, tentaram entrar duas ou três vezes na minha fazenda à noite. É muito ruim, porque abala os funcionários."

O presidente da Aprosoja disse que não existe seguro para esse tipo de produto e que mesmo apólices sobre a propriedade não abrangem defensivos agrícolas. Assim, o produtor arca com todo o prejuízo nos casos de roubo.

Nesta temporada, Mato Grosso deverá responder por quase 30 por cento de uma safra projetada oficialmente em 102 milhões de toneladas de soja no país.

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