Crise do Zika põe pressão sobre restrição da Igreja Católica à contracepção

Por Stephen Eisenhammer

RECIFE (Reuters) - Na linha de frente da luta contra o Zika no Brasil, Vandson Holanda envia voluntários católicos às áreas mais pobres de Recife para mostrar a moradores como se proteger contra os mosquitos que levam o vírus associado a casos de má-formação craniana em recém-nascidos.

Oriente as pessoas a se livrarem do lixo onde a água se acumula e permite que os mosquitos depositem seus ovos, a usar bastante repelente e roupas que cubram braços e pernas e a fechar o ralo do chuveiro para que os insetos não encontrem água acumulada dentro da sua casa.

No entanto, não há lições sobre métodos para evitar a gravidez, o que autoridades brasileiras e internacionais de saúde pública têm insistido para que as mulheres façam até a epidemia do Zika estar sob controle.

A crise está colocando pressão sobre a Igreja Católica, que proíbe todas as formas de contracepção, e alimenta até mesmo um debate sobre aborto em muitos países conservadores da América Latina.

"Eu acho, e essa é a minha opinião pessoal, que a Igreja vai ter que repensar a sua posição sobre contracepção urgentemente por causa do Zika”, disse Holanda, coordenador do comitê de saúde da Igreja em quatro Estados do Nordeste brasileiro que estão no centro da epidemia. "A visão atual não é realista”.

Na quinta-feira, o papa Francisco pareceu sugerir que a Igreja poderia abrandar sua proibição a métodos contraceptivos para mulheres no momento que elas enfrentam a crise do Zika.

"Evitar a gravidez não é um mal absoluto”, disse Francisco a jornalistas no seu avião, quando retornava a Roma, depois de visitar o México.

Ele disse que há um precedente de dispensa excepcional permitindo que mulheres usem métodos contraceptivos, citando um caso de décadas atrás em que o papa Paulo 6° deixou que freiras na África tomassem pílulas por causa do risco de elas serem estupradas em conflitos políticos.

O papa não entrou em detalhes e não indicou se os fiéis que quiserem evitar a gravidez em meio à epidemia de Zika teriam a benção explícita da Igreja, ou se os padres nas localidades iriam somente fazer vista grossa, pelos menos até a situação do surto se tornar mais clara.

O papa Francisco deixou claro que não vai haver mudanças na posição sobre aborto. “É um crime. É um mal absoluto”.

SEM RESPOSTA FÁCIL

Há muito desconhecimento ainda sobre o Zika, incluindo se o vírus causa a microcefalia, uma má-formação craniana.

O Brasil investiga a relação em potencial entre o Zika e quase 4.500 casos suspeitos de microcefalia.

Pesquisadores identificaram evidências de infecção do Zika na maioria dos 508 casos confirmados de microcefalia, no bebê ou na mãe, disse o Ministério da Saúde na quarta-feira, que não confirmou porém se o Zika era a causa.

Antes da visita do papa ao México, uma importante autoridade do Vaticano afirmou não esperar nenhuma mudança na posição da Igreja sobre o controle de natalidade, e pensadores do catolicismo também disseram que mudanças eram improváveis.

"Eu acho incrível que haja tanta atenção para a contracepção, controle de natalidade e legislação sobre aborto por conta do Zika, quando eu acho que muito mais atenção deveria ser dada à fonte do problema do vírus, que são os mosquitos”, disse o padre Robert Gahl, professor de ética em Roma.

No caso de infecção por Zika, o foco da Igreja seria em fornecer a mulher a melhor assistência de saúde possível para evitar que ela seja infectada, em primeiro lugar, ou para os cuidados da criança que nasça com problemas, junto com a promoção da abstinência, afirmou.

O cardeal Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo e considerado por muitos um dos principais candidatos ao papado três anos atrás, tem demonstrado uma aparente abertura para o uso do preservativo com o objetivo de conter a doença. No entanto, respondendo à Reuters por e-mail, ele enfatizou que a luta contra o Zika deve focar em se livrar dos mosquitos, evitar as picadas e em cuidar dos que nascem com problemas.

Fernando Altemeyer, professor de teologia da PUC de São Paulo e um ex-padre, disse que o Zika está provocando de forma inquestionável um debate sobre contracepção dentro da Igreja.

"O Zika colocou a humanidade em crise e, se piorar, vai forçar a Igreja a tomar uma decisão entre salvar a vida humana e salvar o próprio dogma. Não há resposta fácil, não há nada nas normas que possa ser usado como um guia”, disse.

“O Zika está colocando sob risco o mais inocente, a criança não nascida. Dessa forma, seria inteiramente adequado que a Igreja mudasse a sua posição sobre contraceptivos nesse caso”, acrescentou.

Cerca de 65 por cento dos brasileiros são católicos, e pesquisas têm mostrado que mais de três quartos da população rejeitam mudanças nas leis que permitem o aborto somente no caso de estupro, quando a vida da mãe está em perigo, ou no caso de anencefalia, quando o feto tem partes do cérebro faltando, e uma morte logo após o nascimento é quase certa.

Contudo, pesquisas também mostram que os brasileiros na sua maioria aprovam o uso de preservativos para prevenir gravidez e doenças.

"Como católica, sou contra o aborto, mas a Igreja deveria dar mais opções para a mulher que quer prevenir a gravidez”, disse Debora Mariano, uma esteticista de 23 anos do Rio de Janeiro, mãe de um menino de 6 anos.

(Reportagem adicional de Tatiana Ramil, em São Paulo; Brad Brooks, no Rio de Janeiro; e Philip Pullella, em Roma)

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