BC reduz previsão de inflação para 2016 e 2017; repete que não há espaço para cortar juro

BRASÍLIA (Reuters) - O Banco Central reduziu sua projeção para a inflação tanto para 2016 como para 2017, ficando "ao redor" do alvo de 4,5 por cento no ano que vem, mas reiterou não haver espaço para diminuição dos juros básicos diante de fatores como o nível elevado da inflação em 12 meses.

O BC manteve o discurso de cautela, mostrou a ata do Comitê de Política Monetária (Copom) nesta quinta-feira, ao repetir que apesar dos avanços obtidos até agora no combate à inflação, especialmente quanto à contenção dos efeitos de segunda ordem dos ajustes de preços relativos, ainda não pode cortar a Selic.

"(O comitê) considera que o nível elevado da inflação em doze meses e as expectativas de inflação distantes dos objetivos do regime de metas não oferecem espaço para flexibilização da política monetária", trouxe a ata.

Na semana passada, o BC manteve a Selic em 14,25 por cento ao ano, patamar que segue desde julho de 2015, em decisão unânime pela primeira vez depois de três votações rachadas, indicação de que está pavimentando o caminho para afrouxar a política monetária só mais à frente.

O IPCA-15, prévia da inflação oficial do país, acumulou alta de 9,34 por cento nos 12 meses até abril, desacelerando sobre 9,95 por cento de março, mas ainda distante da meta do governo para este ano --4,5 por cento pelo IPCA, com tolerância de 2 pontos percentuais para mais ou para menos.

O BC já havia informado esperar queda de dois pontos percentuais na inflação no primeiro semestre, embalada por fatores como a forte deterioração da economia e do mercado de trabalho, além da menor valorização do dólar frente ao real.

Em seu cenário de referência, o BC considerou o dólar em 3,55 reais, próximo ao patamar atual e já distante do nível de 3,95 reais considerado na reunião anterior do Copom.

Na pesquisa Focus mais recente, realizada pelo BC com uma centena de economistas todas as semanas, a projeção de alta para o IPCA em 2016 caiu pela oitava vez consecutiva, a 6,94 por cento; para 2017, ela estava em 5,72 por cento. Já a expectativa para a Selic é de 13,25 por cento no final deste ano e de 11,75 por cento de 2017.

No mercado de juros futuros, a curva aponta para o início do ciclo de afrouxamento da política monetária em agosto.

O comunicado (da decisão do Copom) já tinha matado a queda dos juros em junho (próximo encontro do Copom). Agora diminuiu muito a probabilidade de queda em julho, mostrando a preocupação com o fiscal", afirmou o sócio-gestor da Modal Asset, Luiz Eduardo Portella, que prevê corte na Selic apenas na reunião do fim de agosto.

Na ata, o BC acrescentou "o processo de distensão no mercado de trabalho" entre os fatores importantes do contexto em que as decisões futuras de política econômica serão tomadas, repetindo outros vetores que já havia citado antes, como a perspectiva de um hiato de produto mais desinflacionário que o inicialmente previsto.

O documento formalizou ainda mensagem que o diretor de Política Econômica do BC, Altamir Lopes, já havia sublinhado em março, sobre balanço do setor público em zona expansionista, em contraposição à posição de neutralidade vista antes.

O BC passou a considerar em seus cálculos os números mais recentes apontados pelo governo, de déficit primário equivalente 1,6 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) este ano e de 0,9 por cento do PIB em 2017. Até a reunião anterior do Copom, o BC ainda contava com superávit primário de 0,5 por cento do PIB em 2016 e de 1,3 por cento do PIB em 2017.

Com a provável troca de governo por conta do afastamento da presidente Dilma Rousseff, o vice Michel Temer deve assumir o comando do país e já indicou que o ex-presidente do BC Henrique Meirelles será seu ministro da Fazenda. Nos bastidores, é dito que o presidente do BC, Alexandre Tombini, pode permanecer no cargo por um período de transição.

(Por Marcela Ayres)

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