Sem principais golfistas e com polêmica sobre campo, volta do golfe aos Jogos é marcada por discórdias

Por Pedro Fonseca

RIO DE JANEIRO (Reuters) - Para recepcionar a volta do golfe às Olimpíadas após 112 anos, o Rio de Janeiro construiu um campo com a promessa de oferecer o que há de melhor aos astros de um dos esportes mais elitistas do mundo, mas em vez de tacadas "hole in one" terá pela frente a ausência dos principais golfistas e uma batalha judicial por acusações de dano ambiental e outras irregularidades.

O retorno do golfe foi decidido pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) em 2009, na mesma reunião que escolheu o Rio como sede dos Jogos deste ano, impondo aos organizadores a necessidade de disponibilizar um campo de 18 buracos para a competição pela primeira vez desde os Jogos de St. Louis 1904.

A intenção era levar à Olimpíada o glamour do esporte, que acabou se tornando mais um motivo de polêmica em Jogos já marcados por crises que vão da poluição na Baía de Guanabara ao medo de contaminação pelo Zika vírus.

"Não sei se o golfe tem espaço na Olimpíada atualmente. Sem ofensas às Olimpíadas, mas eu prefiro estar no time da Ryder Cup", disse o golfista norte-americano Zach Johnson este mês, citando sua preferência por disputar a versão para o golfe da Copa Davis de tênis em vez das Olimpíadas.

Esperando os astros milionários, o Rio construiu um novo campo de golfe que invadiu uma área de 58 mil metros quadrados de um parque natural da Barra da Tijuca, bairro que será o coração dos Jogos que acontecem de 5 a 21 de agosto.

À questão ambiental, se soma o fato de a obra ter sido viabilizada por meio de uma alteração da legislação urbanística da área para beneficiar os investidores privados que bancaram a construção do campo estimado em 60 milhões de reais, o que levou o Ministério Público a acionar a Justiça contra o projeto.

Os organizadores dos Jogos, no entanto, foram surpreendidos nas últimas semanas por uma nova polêmica: uma série de desistências de grandes nomes do esporte, entre eles os quatro primeiros do mundo. Jason Day, Dustin Johnson, Jordan Spieth e Rory McIlroy citaram preocupações com a saúde, principalmente relacionadas à Zika.

"Lamento profundamente que aquele espaço destinado à conservação tenha sido objeto de transformação tendo como objetivo os Jogos Olímpicos, e agora se vê uma dupla derrota para a cidade, esportiva e ambiental", disse à Reuters o promotor Marcus Leal, coordenador do Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente do Ministério Público estadual do Rio de Janeiro.

Leal está à frente da ação civil pública que busca a anulação da licença ambiental concedida ao projeto do campo de golfe e a recuperação dos danos ambientais decorrentes das intervenções na área. Separadamente, o MP também abriu inquérito para investigar eventual improbidade administrativa do prefeito do Rio, Eduardo Paes, na mudança de legislação que viabilizou a construção do campo.

"GOLFE PARA QUEM?"

De acordo com o movimento "Golfe para Quem?", contra a construção do campo, os proprietários da área beneficiada pela mudança de legislação obtiveram vantagem de 1 bilhão de reais com a elevação do gabarito dos prédios de 6 para 22 andares, em contrapartida pelos 60 milhões de reais arcados com a construção do campo.

"A gente está acostumado com a corrupção que a gente vê todo dia do desvio de verbas e superfaturamento de obras, mas a gente está falando aqui de um outro tipo de corrupção, a corrupção mascarada pelos negócios aparentemente legais, em que o Estado é lesado em função dos maus negócios feitos pelo administrador público", disse o advogado e ativista do "Golfe para Quem?" Jean Carlos Moreira.

A Prefeitura do Rio defende com firmeza a construção do novo campo de golfe, apontando benefícios econômicos e ambientais com o projeto.

Segundo o município, um estudo técnico da Federação Internacional de Golfe (IGF) realizado em 2011 sugeriu que a melhor alternativa esportiva e técnica seria construir o novo campo no local onde de fato foi feito, uma vez que o custo seria praticamente o mesmo de fazer as reformas no Itanhangá Golf Club --com o benefício de que o novo ficaria como um legado público.

Quanto à questão ambiental, a prefeitura criou um novo parque contíguo ao que foi invadido pelo campo de golfe com uma área de 1,6 milhão de metros quadrados, como forma de compensação pelos 58 mil metros quadrados perdidos com a construção do campo.

Depois dos Jogos, o local será público por 20 anos, sob administração da Confederação Brasileira de Golfe (CBG), que montará uma academia de alto rendimento e para golfistas juvenis, além de usar a instalação como sede nacional de um projeto que visa popularizar o esporte no país.

"O campo tem chances de entrar na lista dos melhores do mundo rapidamente. Nunca foi feito na América do Sul, talvez na América Latina, um campo tão completo, com tanto investimento, tanto maquinário. É um campo realmente excepcional", disse Henrique Fruet, gerente de Comunicação da CBG.

O torneio olímpico de golfe será disputado com 60 homens e 60 mulheres. Se na chave masculina serão sentidos vários desfalques, entre as mulheres o comparecimento será de praticamente 100 por cento.

"O Zika deveria ser uma preocupação para as golfistas e atletas femininas, se fosse para ser, e é incrível a reação positiva que estamos tendo de nossas jogadoras. Recebemos todas as informações de saúde da IGF e do COI, e a reação majoritária que tivemos foi 'jamais vamos deixar que um mosquito nos impeça de realizar nossos sonhos'", disse o executivo-chefe da associação europeia de golfistas femininas Ladies European Tour (LET), Ivan Khodabakhsh.

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