PF prende grupo suspeito de preparar atos terroristas na Olimpíada do Rio

Por Lisandra Paraguassu e Anthony Boadle

BRASÍLIA (Reuters) - A Polícia Federal prendeu nesta quinta-feira 10 pessoas suspeitas de pertencerem a uma célula leal ao grupo jihadista Estado Islâmico e que estaria preparando atos de terrorismo durante os Jogos Olímpicos do mês que vem no Rio de Janeiro, em uma operação inédita no país deflagrada a 15 dias da cerimônia de abertura da competição.

A chamada operação Hashtag foi realizada a partir das quebras de sigilo de dados e telefônicos dos suspeitos, que passaram de uma fase inicial de declarações via internet a realizar atos preparatórios para possíveis atentados, como treinamentos de artes marciais, armamentos, tiro e até a busca por compra de um rifle, de acordo com o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes.

“Houve um primeiro contato comprovado com o Estado Islâmico, contato não pessoal, contato via internet, o juramento. Na sequência, houve uma série de atos preparatórios, e em um determinado momento esse próprio grupo deixou de entender que o Brasil seria um país neutro... e passou a entender que em virtude da Olimpíada o Brasil poderia eventualmente se tornar em um alvo”, disse Moraes em entrevista coletiva sobre a operação em Brasília.

Segundo o ministro, a suposta célula era “absolutamente amadora, sem nenhum preparo”, mas qualquer ato de terrorismo, “por mais insignificante que seja”, terá uma resposta rápida das autoridades de segurança.

A tentativa de minimizar o risco representado pelo grupo preso nesta quinta-feira preocupou autoridades de segurança, revelaram à Reuters fontes da Polícia Federal.

Para essas fontes, o atual modelo de ataques realizados recentemente mostra que não é preciso uma organização complexa, estrutura de financiamento ou uma cadeia de comando, mas apenas alguém imbuído do desejo se tornar mártir e atacar o que se chama de “soft targets” –pessoas comuns, em vez de chefes de Estado ou alvos mais protegidos.

As investigações sobre o grupo preso constataram, de acordo com o Ministério Público Federal, uma tentativa de organização para “promoção de atos terroristas durante os Jogos Olímpicos Rio 2016”, tendo sido identificadas mensagens trocadas pelos suspeitos relacionadas à possibilidade de se aproveitar o momento da Olimpíada para a realização de atentado.

“A custódia dos presos em presídio federal efetivará a prevenção de atuação terrorista pelo grupo em questão durante o evento internacional sediado no país”, afirmou o MPF em comunicado.

Como parte da operação, foram cumpridos 10 mandados de prisão temporária pela Justiça Federal do Paraná, dois mandados de condução coercitiva e 19 de buscas e apreensão nos Estados do Amazonas, Ceará, Paraíba, Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Mato Grosso e Rio Grande do Sul.

“O trabalho judicial foi no sentido de aprofundar as investigações e ao mesmo tempo prevenir aquilo que havia indícios de que pudesse acontecer (um ataque)”, afirmou a jornalistas o juiz federal Marcos Josegrei da Silva, titular da 14ª Vara Federal de Curitiba, que expediu os mandados.

“Não é qualquer bobagem (que os suspeitos estavam falando na Internet)”, disse o juiz ao justificar sua decisão de determinar a prisão dos suspeitos em coletiva de imprensa na capital paranaense. O magistrado disse que alguns dos suspeitos disseram possuir armas de fogo, enquanto outros manifestaram interesse de adquirir armamento contrabandeado. Dois dos presos já foram condenados por homicídios, segundo ele.

Durante o cumprimento dos mandados, foram apreendidos equipamentos, como computadores e celulares, e, segundo o ministro da Justiça, a Polícia Federal vai analisar o material rapidamente para saber se há ou não ramificações do grupo no país. O ministro não deu mais informações sobre os suspeitos, uma vez que o processo tramita sob sigilo.

A informação passada pelo ministro da Justiça foi de que a célula vinha sendo acompanhada desde abril. Fontes da Polícia Federal, no entanto, revelaram à Reuters que o grupo estava na mira da polícia há cerca de um ano, e a atividade se acelerou nos últimos meses.

Uma fonte do Palácio do Planalto disse à Reuters após as prisões desta quinta que a PF ainda está monitorando 100 pessoas por possíveis ligações com grupos terroristas, a maioria residente na área da tríplice fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai. [nE6N18805G]

Para Scott Stewart, vice-presidente de análises táticas da empresa global de consultoria em geopolítica e inteligência Stratfor, o governo brasileiro agiu de forma preventiva na operação desta quinta.

"Há alguns benefícios táticos de prisões como essas, mesmo que o grupo não esteja realmente pronto para agir. Você pode desmantelar qualquer coisa que estiver sendo planejada e isso também pode fazer com que outras pessoas façam uma pausa", disse.

JURAMENTO DE LEALDADE AO EI

Alexandre de Moraes confirmou nesta quinta que a atividade do grupo se acelerou nos últimos meses, depois que participantes do grupo juraram lealdade ao Estado Islâmico e que um deles fez contato com uma loja de venda ilegal de armas no Paraguai, em busca de um fuzil AK–47.

O ministro informou ainda que o grupo não tinha contato pessoal, mas se comunicava via aplicativos de mensagens. Nenhum deles, também, teria tido contato direto com o Estado Islâmico, mas teriam feito a conversão e o juramento de lealdade via Internet.

As investigações revelaram também que o grupo era de jovens convertidos recentemente ao islamismo e Moraes fez questão de dizer que, apesar das prisões, não se pode dizer que aumentou o risco de ataques terroristas no país durante a Olimpíada. “Não aumentou o risco, não há probabilidade (de ataque), a probabilidade é mínima”, afirmou.

O Ministro da Defesa, Raul Jungmann, também ressaltou o amadorismo do grupo. “Vocês chegaram a ver o vídeo? É de um amadorismo e, me perdoem o linguajar, um tanto vulgar: uma porralouquice”, disse a jornalistas no Rio de Janeiro, referindo-se a um vídeo elaborado pelos suspeitos, mas que não foi divulgado pelas autoridades.

O presidente interino Michel Temer acompanhou nesta manhã o desenrolar da operação da PF e convocou uma reunião com autoridades do setor de segurança. [nE6N19201X]

O secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, garantiu que o esquema de segurança para a Olimpíada não sofrerá alterações por conta das prisões desta quinta. [nL1N1A71XU]

Para o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB), a operação da PF desta quinta é "positiva" e mostra que as forças de segurança do país estão trabalhando.

"No meu caso isso reforça a minha tranquilidade com as forças policiais, as forças de segurança, no trabalho da agência de inteligência brasileira e nas agências de inteligência internacionais, que sei que estão dialogando com as agências brasileiras, no trabalho da polícia federal", disse Paes em entrevista à Reuters.

A ação da PF ocorre dias após o serviço internacional de inteligência SITE, especializado no monitoramento ao terrorismo, informar que um suposto grupo militante intitulado Ansar al-Khilafah Brazil declarou apoio ao Estado Islâmico em publicação em um aplicativo de mensagens e promoveu propaganda jihadistas em inglês e português.

De acordo com o SITE, um jihadista apoiador do Estado Islâmico denominado Ismail Abdul Jabbar al-Brazili enviou mensagens em português pelo serviço Telegram repetindo discurso de um porta-voz oficial do grupo militante, além de outras mensagens.

A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) já havia confirmado no mês passado que equipes de inteligência que atuam próximas ao plano de segurança dos Jogos do Rio tinham detectado a abertura de uma conta em português no aplicativo Telegram para a troca de informações sobre o Estado Islâmico, mas as autoridades vinham garantindo que não havia sido detectada nenhuma ameaça de ataque ao país.

A preocupação com um possível atentado no país durante os Jogos Olímpicos, de 5 a 21 de agosto, cresceu recentemente na esteira de ataques na França, nos Estados Unidos e em outros países, que posteriormente foram reivindicados pelo Estado Islâmico, grupo que ocupa territórios na Síria e no Iraque e que enfrenta uma coalizão militar liderada pelos EUA.

(Reportagem adicional de Pedro Fonseca e Rodrigo Viga Gaier, no Rio de Janeiro; Alonso Soto, em Brasília; Sérgio Spagnuolo, em Curitiba, e Brad Haynes, em São Paulo)

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