BC reforça riscos para a inflação e descarta corte nos juros tão cedo, mostra ata

Por Marcela Ayres

BRASÍLIA (Reuters) - O Banco Central reforçou a existência de pressões negativas sobre a inflação e chamou a atenção para a importância de ajustes necessários no campo fiscal, em ata do Comitê de Política Monetária (Copom) divulgada nesta terça-feira, na qual afastou a possibilidade de corte na taxa básica de juros.

No documento, o BC informou que a projeção de inflação para 2017 caminhando para o centro da meta, de 4,5 por cento pelo IPCA, vem com a Selic em 14,25 por cento constante (cenário de referência). Pelo cenário de mercado, vê alta em torno de 5,3 por cento.

Para 2016, tanto pelo cenário de referência quanto pelo de mercado, a estimativa é de inflação em torno de 6,75 por cento --estourando a meta de 4,5 por cento pelo IPCA, com margem de dois pontos percentuais. Para 2017,

"O processo de implantação dos ajustes necessários na economia, inclusive de natureza fiscal, apresenta-se, ao mesmo tempo, como um risco e uma oportunidade para o processo desinflacionário em curso", trouxe a ata do Copom.

Na semana passada, o BC manteve a Selic em 14,25 por cento ao ano, patamar que segue desde julho de 2015, na primeira reunião do Copom sob o comando de Ilan Goldfajn e que trouxe mudanças significativas no comunicado, mais extenso e detalhado.

O BC vem reiterando o compromisso de levar a inflação para o centro da meta, com margem de tolerância é de 1,5 ponto percentual. Nesse contexto, afirmou novamente que "o cenário básico e o atual balanço de riscos indicam não haver espaço para flexibilização da política monetária".

Na ata, o BC informou que apesar dos progressos obtidos até agora e da melhora no cenário macroeconômico, a desinflação em curso tem procedido em velocidade aquém da almejada e que "a continuidade dos esforços para aprovação e implementação dos ajustes na economia, notadamente no que diz respeito a reformas fiscais, é fundamental para facilitar e reduzir o custo do processo de desinflação".

O BC destacou ainda que o ajuste das contas públicas pode envolver medidas com impactos diretos desfavoráveis sobre a inflação, risco que deve ser monitorado.

Na véspera, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, reconheceu que o governo pode elevar impostos para reforçar as receitas no ano que vem. Nos bastidores, a equipe econômica debate a elevação na alíquota de tributos que não demandam aval do Congresso, como a Cide sobre combustíveis, que tem impacto direto sobre a inflação.

"Há várias referências sobre horizonte relevante para a política monetária (na ata), o que significa que não há espaço para reduzir a Selic", afirmou o economista-chefe do banco Fator, José Francisco Gonçalves, para quem o BC vai cortar a taxa de juros em outubro, mas não descarta que isso possa ocorrer apenas em novembro.

Na pesquisa Focus mais recente, conduzida pelo BC com uma centena de economistas todas as semanas, a expectativa para inflação mostrou pequeno alívio tanto para 2016 (7,21 por cento) quanto para 2017 (5,29 por cento), embora tenha seguido distante dos objetivos perseguidos pelo BC.

A ata do Copom também veio com formato diferente, explorando em diversos momentos pontos que não eram consenso entre os membros do colegiado.

"Alguns membros ponderaram que, diante da desaceleração econômica observada até aqui, esperava-se uma queda maior da inflação. Outros membros chamaram a atenção para a desinflação de serviços já observada. Alguns membros do Comitê esperam que os efeitos desinflacionários do nível de ociosidade na economia ainda possam vir a se manifestar de maneira mais intensa", destaca um dos trechos do documento.

De maneira geral, a ata deu mais detalhes sobre os riscos que o BC vê para o processo de desinflação, incluindo, além do fiscal, pressões sobre preços de alimentos.

Com a ata divulgada mais cedo, o mercado de juros futuros passou a ver que o ciclo de redução da Selic vai começar apenas em novembro, no último encontro do Copom neste ano. O próximo é no final de agosto.

"É um BC que está olhando não só para os modelos dele, mas está olhando o comportamento das expectativas de inflação", afirmou o economista-chefe da Votorantim Corretora, Roberto Padovani, para quem a Selic vai começar a ser reduzida em outubro.

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