Esforço de pacificação das favelas do Rio enfrenta crise, e mortes aumentam

Por Brad Brooks

RIO DE JANEIRO (Reuters) - Sobre a mesa azul de metal havia duas pistolas 9 mm e pacotinhos de plástico com cocaína e maconha. Dois jovens estavam sentados de forma relaxada em cadeiras brancas de plástico, enquanto um terceiro segurava um fuzil numa esquina a dez metros.

Era meio-dia, nesta semana, e não muito longe da rua principal da Rocinha, a favela carioca mais desenvolvida e supostamente “pacificada”, localizada no meio do caminho entre as duas principais zonas olímpicas do Rio, Barra e Copacabana.

Um policial uniformizado se encontrava a apenas 150 metros, numa via asfaltada e sinuosa acima.

Há quanto tempo os traficantes voltaram a portar armas de forma aberta na Rocinha, onde 3.000 policiais e veículos blindados entraram no fim de 2011 para os expulsarem?

"Se você não está comprando, vaza”, foi a resposta direta de um dos homens à mesa, que parecia não ter completado ainda 20 anos.

A cena é emblemática dos problemas que atingem o estagnado programa das Unidades de Polícia Pacificadora, as UPPs, iniciado em 2008. O objetivo era ambicioso: tirar os grupos com armamentos pesados das favelas e construir postos policiais permanentes.

No início houve êxitos, mas eles ficaram para trás, uma vez que o número de mortes está novo aumentando. A falta de uma política de investimentos posteriores séria, diante dos escassos recursos públicos e da pouca vontade política, agora ameaça o programa inteiro.

Enquanto a maioria dos moradores está satisfeita pelo fato de o tráfico ter presença menor do que antes, eles também esperavam ver melhorias em escolas, atendimento de saúde e saneamento.

A prefeitura do Rio diz ter gasto 1,8 bilhão de reais em programas sociais desde 2011. Contudo, são tantas as necessidades para os cerca de 20 por cento da população carioca que vive em favelas, que a frustração com que os moradores veem como falta de avanços intensifica as tensões com a polícia.

"As pessoas por aqui têm mais medo da polícia do que nós tínhamos dos traficantes de drogas”, afirmou Alex de Mello, peixeiro que mora há 24 anos na Rocinha. “Pelo menos com os traficantes, se você toma conta da sua vida, você provavelmente vai ser deixado quieto.”

Até agora, 38 UPPs foram criadas, colocando mais de 9.500 policiais nas favelas, onde 1,5 milhão de pessoas moram, segundo o governo do Estado do Rio.

O esforço visava trazer segurança antes dos Jogos Olímpicos e da Copa do Mundo de 2014, com o prometido legado de levar serviços sociais básicos às favelas.

As autoridades declararam de forma aberta que o esforço não poderia terminar com o tráfico de drogas, mas que buscava pelo menos desarmá-lo. Por anos, as drogas continuaram a ser vendidas, mas sem a presença óbvia das armas. Isso está mudando.

Pelos primeiros cinco anos, o programa foi um grande sucesso para a segurança. Em 2012, o número de assassinatos no Rio e na Baixada Fluminense, no entorno da cidade, despencou 40 por cento em relação aos 3.856 mortos de 2008.

"Então, nós tivemos o efeito Rocinha”, afirmou Robert Muggah, pesquisador do Instituto Igarapé, um centro de análises no Rio sobre segurança e desenvolvimento. “A resistência ao programa começou em 2013 e aumentou com a morte do Amarildo”.

Um trabalhador de construção de 42 anos, morador da Rocinha, Amarildo de Souza foi raptado, torturado e “desaparecido” pela polícia pacificadora em julho de 2013.

Homens da UPP afirmaram de maneira falsa que ele tinha ligações com o crime. O seu corpo nunca foi encontrado.

Doze policiais foram considerados culpados no caso, com o ex-comandante da UPP na Rocinha sentenciado em fevereiro a mais de 13 anos de cadeia.

A morte de Amarildo se deu após anos de reclamações sobre a brutalidade do policiamento e foi a gota d’água para os moradores cansados de promessas sobre serviços básicos que nunca se concretizavam.

Diversos episódios posteriores de policiais matando inocentes, incluindo crianças, e pegos em conluio com traficantes tornaram as coisas ainda piores. Acrescente a atual recessão, e o apoio público e institucional para as UPPs caiu.

A última unidade criada foi inaugurada em maio de 2014. Desde então, nada.

Cinco anos depois da criação do programa, o número de homicídios disparou de novo de forma súbita. As mortes de 2013 retornaram aos níveis pré-UPP, com 3.879 assassinatos no Rio e na Baixada.

As mortes diminuíram novamente nos dois anos seguintes, mas subiram 7,5 por cento, para 1.518 assassinatos nos primeiros seis meses deste ano, em comparação com o mesmo período de 2015.

O número de pessoas mortas pela polícia pulou 12 por cento no mesmo intervalo de tempo. Cresceu 62 por cento em maio e junho, com 127 pessoas mortas por policiais, a maioria delas homens jovens, negros e pobres.

Renata Neder, assessora de direitos humanos da Anistia Internacional no Rio, culpou a Olimpíada pelo aumento da violência policial, por conta das incursões mais frequentes nas favelas.

"Você aumenta o número de operações, você aumenta então o número de pessoas sendo mortas”, disse. “A segurança para os Jogos está resultando em violações de direitos.”

(Reportagem adicional de Maria Pia Palermo)

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